Estante


Ano VI - nº 151
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Plantado no desmate

Estimado amigo e amiga do MST,

A aprovação da Medida Provisória (MP) 422 pelos deputados federais na noite de terça-feira, poucas horas após a saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente, confirma que a defesa da biodiversidade vem perdendo a batalha contra o desmatamento e o desenvolvimento a qualquer custo, defendido por diversos setores do governo.

A recém aprovada MP 422 pode ser traduzida como a “legalização da grilagem”. Ela trata da dispensa de licitação para a venda de terras públicas com até 1.500 hectares – limite ampliado em mil hectares – sob a tutela do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

Agora, a MP 422 aguarda a companhia do Projeto de Lei proposto pelo senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), o PL 6.424, outro grande incentivo à devastação, que reduz de 80 para 50% a exigência de reserva legal (área de preservação de floresta) em propriedades na Amazônia.

Ambas as propostas evidenciam a prioridade do governo federal: abrir terreno para o agronegócio, seja ele qual for. O setor do agronegócio é hoje protagonista do grande processo de devastação da Amazônia que, nos últimos cinco meses de 2007, excedeu a medida de 3.000 quilômetros quadrados de floresta, de acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente.
 
Não é por acaso que os ventos apontam para o Norte e o agronegócio segue essa direção. É na região amazônica que está concentrado o maior volume de terras devolutas do país. Essa é a base de um processo de ocupação e devastação que, aliado ao uso da máquina estatal para fins privados, abre espaço para as diversas frentes do agronegócio em destaque no mercado, em especial o extrativismo de madeira, pecuária e a monocultura da soja.
 
Trocar a floresta por boi é projeto antigo. Sabe-se que a iniciativa de ocupar a região com gado remonta à década de 1950 e começou a dar passos mais firmes durante o governo militar, quando em 1966 foram aprovados os primeiros projetos agropecuários para região.
 
A Amazônia sofre hoje com uma dose cavalar de ocupações ilegais realizadas por latifundiários pecuaristas e produtores de soja, desenvolvidas por meio da grilagem de terras e pactuada com a pilhagem de madeira. Os últimos dados sobre o avanço da produção de gado, por exemplo, são emblemáticos e assustadores.
 
O montante de áreas usadas para a pecuária na região é de 32,6 milhões de hectares, o que corresponde à soma das áreas dos estados de São Paulo, Rio e Espírito Santo. Dos 30,6 milhões de hectares devastados entre os anos de 1990 e 2006, 25 milhões foram transformados em pasto.
 
O roteiro é simples: primeiro é preciso cercar a terra adquirida junto ao Incra – geralmente de maneira ilegal –, vende-se a madeira da área e então, depois de uma pequena queimada para construir pasto, toma-se a terra para a criação de gado ou, com mais investimento, para a plantação de soja.
 
Um esquema que conta também com empresas exportadoras brasileiras e estrangeiras. Um terço da carne produzida nessas áreas ilegais, bem como grande parte da madeira roubada e da soja, vão para fora do país. Ou seja, parte do superávit da balança comercial do país, principal “benefício” do modelo do agronegócio, é sustentado na devastação da Amazônia.
 
O que evidencia a disposição do agronegócio no Brasil: usar a terra que pertence a todo o povo em função única e exclusivamente do lucro, sem levar em conta questões ecológicas ou de outra ordem, atentando contra condições humanas de sobrevivência.    
 
O problema da pilhagem de madeira e ocupação pelo gado está longe de ser resolvido. Pelo contrário. Agora a investida desses latifundiários é descaradamente travestida de assentamento, a exemplo das denúncias que marcaram o fim de 2007, sobre projetos irregulares no Oeste do Pará, os quais, em vez de abrigarem agricultores, estariam sendo explorados ilegalmente por madeireiras.
 
O escândalo que revelou a existência de um pacto entre madeireiras e o Incra do Pará, acusado de destinar áreas da floresta para assentamentos falsos que são depois exploradas pelos latifundiários, há muito vinha sendo denunciado pelo MST.
 
Nessa ciranda, a monocultura da soja muitas vezes trabalha em parceria com a pecuária, já que o grão se expande por áreas de pastagem degradada. O cultivo já devasta o cerrado e avança sobre a Floresta Amazônica.
 
Encabeçando esse processo estão o capital financeiro e as grandes transnacionais do agronegócio, como Cargill, Bunge, Monsanto, Syngenta, Stora Enzo e Aracruz, que orientam um modelo de produção agrícola baseado na expulsão dos trabalhadores rurais, indígenas do campo e na destruição do meio ambiente.
 
Entre 1995 e 2003 a produção de soja cresceu mais de 300% nos estados do Pará, Tocantins, Roraima e Rondônia e essa expansão tem previsão de continuidade até 2020. A área de cultivo de soja na Amazônia passou de 20 mil hectares no ano de 2000 para 200 mil em 2006.
 
Mais impressionante e incriminador são os dados do aumento da produção em Santarém, no Pará. Um claro exemplo da relação dos investimentos dessas transnacionais com a devastação de nossa floresta. A área colhida em Santarém saltou de 200 hectares em 2002, para 4,6 mil em 2003 e hoje corresponde a 16 mil. Curiosamente, foi no ano de 2003 que o porto construído na cidade pela Cargill, destinado para o escoamento de grãos, começou a operar. Porto que, aliás, foi instalado ilegalmente, pois à época não apresentou o Estudo de Impacto Ambiental que é precedente obrigatório para tal empreendimento, segundo a Constituição de 1988.

As transnacionais buscam agora introduzir no mercado novas sementes transgênicas, tornando ainda mais acirrado o avanço sobre a floresta. E isso já está acontecendo. Amargamos recente liberação de duas variedades de milho transgênico da Monsanto e da Bayer que agora poderão ser comercializadas.
 
A decisão do CNBS (Conselho Nacional de Biossegurança) põe em risco um longo trabalho de conservação a campo de centenas de variedades de milho adaptadas a diferentes regiões e a diferentes usos e cultivadas livremente pelos agricultores.
 
A conseqüência mais grave diz respeito à soberania alimentar do país. Isso porque o milho está na base da estrutura alimentar brasileira e as variedades transgênicas a serem cultivadas atendem prioritariamente à produção de ração e agrodiesel. Mesmo se direcionadas à alimentação, o alerta permanece, haja vista a desaprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) quanto ao processo de liberação, por não conter dados que comprovassem a segurança do grão para o consumo humano.
 
Há anos o movimento vem reivindicando que a criação de assentamentos seja concentrada em áreas com maior número de acampamentos, como no Nordeste, Sul e Sudeste. Enxergamos as florestas como patrimônio da humanidade e sabemos que os maiores prejudicados com a devastação são os camponeses. Tal posicionamento encontra referência em nossas ações, que se contrapõem ao modelo agroexportador. Apostamos na agricultura camponesa desenvolvida em pequenas propriedades, com base na agroecologia e sabemos que são os camponeses os guardiões de nossa terra
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Secretaria Nacional do MST



Escrito por hsliberal às 11h17
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UOL, Mídia Global, 12/05/2008
Lula tem sorte, mas Congresso está paralisado
Jonathan Wheatley

Parece que as coisas não poderiam estar melhores para Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Brasil. Depois de anos de crescimento lento, a economia está acelerando alegremente. Investimentos, crédito e empregos estão em níveis que não eram vistos há décadas. O consumo sobe às alturas e também a popularidade de Lula da Silva.

Seu predecessor, que forneceu a estabilidade que tornou Lula tão popular, mas colidiu com a má sorte e a má administração no setor elétrico, deixou o cargo conhecido como "o presidente do blecaute".

Graças à Standard & Poor's, agência de análise de risco, que surpreendeu muitos ao elevar a classificação da dívida soberana do Brasil no dia 30 de abril, Lula parece que vai sair no final de 2010 como "o presidente do grau de investimento".

Isso se sua extraordinária sorte política se mantiver. Há apenas dois anos, perto do final de seu primeiro mandato de quatro anos e envolvido no caso do mensalão - um escândalo sobre supostos subornos por votos no Congresso - ele foi encarado não só como não elegível como se levantou a possibilidade de que fosse submetido a um impeachment a qualquer momento.

O presidente conseguiu minimizar aquele escândalo e conquistar uma vitória esmagadora em outubro de 2006. Com dois anos e meio à frente da próxima eleição presidencial - na qual, sob a legislação atual, Lula não poderá concorrer - ninguém espera que sua sorte sofra qualquer revés semelhante. No entanto um dos legados do escândalo do mensalão foi o de deixar as coisas imobilizadas no Congresso, ameaçando o crescimento econômico que fez de Lula o mais popular presidente do Brasil na memória viva.

"O governo não tem uma agenda legislativa porque decidiu não ter uma," diz Amaury de Souza, analista político no Rio de Janeiro. "Sua maior prioridade foi a de criar uma coalizão forte o suficiente para proteger-se do tipo de ameaça de impeachment que o escândalo do mensalão representa."

A política econômica no Brasil, enquanto isso parece ter sido dividida ao meio.

Do lado monetário ela é rigidamente ortodoxa. O Executivo determina ao banco central uma meta de inflação (atualmente de 4,5% no ano), que o banco persegue por meio das taxas de juros. Depois de dois anos de cortes ele começou a elevar as taxas de novo no mês passado para conter a inflação, comprovando sua independência de fato frente à oposição pública de vários ministros.

A política fiscal, de outra parte, continua na maior parte não ortodoxa. Economistas têm argumentado há anos que para alcançar duradouras e elevadas taxas de crescimento, o governo precisa reduzir o persistentemente elevado nível de dívida pública e liberar dinheiro para investimentos. Isso exige cortes nos gastos, que são politicamente difíceis, especialmente nas aposentadorias e folhas de pagamentos públicas.

Em vez disso, o governo aumentou seus gastos correntes ao contratar mais servidores públicos, por exemplo, e elevando o salário mínimo nacional acima da taxa de inflação. O gasto público cresce numa taxa anual de 9,4%, segundo economistas do Unibanco, um banco privado, cerca de duas vezes o estimado crescimento da economia para este ano.

Souza argumenta que o incentivo para a alta de gastos tem sido a pressa do governo de garantir uma maioria substancial nas duas casas do Congresso. "Isso tem um gigantesco custo fiscal," ele diz. "Eles precisaram aumentar o número de ministérios para dar empregos aos aliados."

Em seu primeiro mandato, ele indica, Lula teve o apoio de 11 partidos políticos no Congresso. Esse número aumentou desde então, pelo menos no papel, para 14 partidos.

Reduzir gastos é difícil por melhores que sejam os tempos, porque a Constituição de 1988 fecha em torno de 94% dos gastos antecipadamente.

No entanto, existem projetos de lei que poderiam dar início aos cortes, bloqueados no Congresso, em parte porque não poderão ser debatidos antes que legisladores toquem uma série de decretos presidenciais, conhecidos como medidas provisórias, que em algum ponto precisarão ser votadas para se tornarem permanentes.

O presidente usou tais medidas para elevar o gasto público em R$ 25 bilhões (US$ 14,8 bilhões) no final do ano passado e em cerca de R$ 3 milhões nos quatro primeiros meses do ano, embora a Constituição diga que os decretos só podem ser usados para elevar os gastos em tempos de guerra, calamidade ou perturbação pública.

Com o Congresso inativo, dificilmente a política fiscal mudará. Isso pode não ser um problema imediato, enquanto o preço das commodities permanecer elevado e junto do investimento estrangeiro direto, estes continuarem a cobrir o recém-adquirido déficit de conta corrente do Brasil.

Mesmo que tais condições venham a se alterar, Lula da Silva pode ter a sorte suficiente de ter transmitido o poder a um sucessor escolhido.



Tradução: Claudia Dall'Antonia


Escrito por hsliberal às 00h12
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UOL, Mídia Global, 13/05/2008
"Nós queremos entrar para a Opep e deixar o petróleo mais barato", diz Lula
Jens Glüsing e Helene Zuber
da "Der Spiegel"


O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, 62, fala à "Spiegel"
sobre o motivo do Brasil querer ingressar na Opep, o programa de biocombustíveis de seu país e o medo na Europa do deslocamento da América Latina para a esquerda.

Spiegel: Sr. presidente, quando o senhor tomou posse há cinco anos, muitos temiam que o senhor, sendo um ex-líder sindical, pudesse conduzir o país em uma direção socialista. Em vez disso, o senhor adotou políticas econômicas liberais que levaram o país a um crescimento econômico espetacular. O senhor abandonou os princípios de seu passado?

Lula: Como presidente, eu preciso atender a todos. Essa é a força da democracia. Alguém que é eleito pelo povo prestará tanta atenção às necessidades de um banqueiro quanto às de uma criança de rua e de um trabalhador ao buscar um equilíbrio entre seus interesses individuais. Em 2003, nós tivemos que fazer algumas mudanças muito difíceis nas finanças do governo, para que os brasileiros pudessem agora desfrutar de maior estabilidade. Na época, eu usei a confiança que os eleitores depositaram em mim para colocar nosso orçamento nacional em ordem.

LULA FALA À "DER SPIEGEL"
AFP

Acompanhe trechos da entrevista:

  • "Tivemos que fazer algumas mudanças muito difíceis nas finanças do governo para que os brasileiros pudessem agora desfrutar de maior estabilidade"

  • "Ninguém pode eliminar as injustiças de séculos em apenas oito anos"

  • "Nós queremos entrar para a Opep e tentar deixar o petróleo mais barato"

  • "A União Européia deve nos dar a chance de produzir biocombustível"

  • "O Primeiro Mundo deve parar de subsidiar sua própria agricultura e suspender as altas tarifas protecionistas sobre as importações"

  • "A esquerda na América do Sul ainda usa os mesmos slogans que a esquerda européia usava nos anos 20 e 30"

  • "A Europa não precisa se preocupar com a esquerda na América Latina"

  • "Os cubanos tem um alto nível de educação e agora é hora deles criarem a base para promover o próximo grande passo de desenvolvimento".

  • "Dois mandatos bastam. Caso contrário a democracia se transforma em ditadura. A mudança faz bem para o país"
  • Spiegel: Seu país pagou suas dívidas com o Fundo Monetário Internacional e, desde, então se tornou um lugar seguro no qual investir. Outros 20 milhões de cidadãos ingressaram na classe média. Todavia, ainda há uma enorme desigualdade entre ricos e pobres entre os 190 milhões de habitantes do Brasil. Como o senhor espera superá-la?

    Lula: Ninguém pode eliminar as injustiças de séculos em apenas oito anos. Mas nós encontramos uma forma de superar a pobreza que não é cara. Nós pagamos aos jovens um subsídio para que possam ir à escola e aprender uma profissão. Cerca de 400 mil jovens pobres que no passado nunca teriam uma chance de ter ensino superior agora estão recebendo bolsas e mais de 40% deles são negros.

    Spiegel: Uma guerra das drogas está transcorrendo em suas grandes cidades. Gangues armadas controlam grande parte das favelas no Rio de Janeiro. O governo perdeu o controle sobre as favelas?

    Lula: Só a polícia não é suficiente para resolver o problema. O próprio governo deve fazer sua presença ser sentida e fornecer oportunidades, e então a violência diminuirá. Este é o motivo para estarmos limpando as maiores favelas de todo o país. Nós estamos fornecendo para elas água encanada, energia e sistemas de esgoto, escolas, hospitais e bibliotecas.

    Enquanto nossa economia continuar crescendo a taxas entre 4% e 6% a longo prazo, nós poderemos continuar pagando por isso. Nós destinamos US$ 270 bilhões (R$ 449 bi) para a melhoria das favelas, assim como para a modernização da nossa infra-estrutura -nossos portos, estradas, ferrovias e aeroportos-, tudo sem realizar novos empréstimos.

    Spiegel: E agora o Brasil também planeja se tornar uma potência produtora de petróleo?

    Lula: Nós descobrimos reservas imensas de petróleo a 273 quilômetros da costa, a uma profundidade de 2.140 metros e sob uma camada de 5 mil metros de sal e rocha. Nós temos o know-how para explorar estas reservas. Nós esperamos começar a exploração teste em março e começar a produzir petróleo em 2010. Então o Brasil se tornará um grande exportador de petróleo. Nós queremos entrar para a Opep e tentar deixar o petróleo mais barato.

    Spiegel: Até recentemente, o senhor estava elogiando os produtores de açúcar como os novos heróis nacionais. O Brasil depositou suas apostas no etanol, derivado de cana-de-açúcar, como o combustível do futuro. Mas, na Europa, o biocombustível agora é visto como ecologicamente suspeito.

    Lula: O Brasil tem 33 anos de experiência com biocombustíveis. Os carros que são fabricados no nosso país vêm com motores que rodam com misturas de gasolina e álcool. Eles reduzem consideravelmente as emissões de CO2. As plantações de cana-de-açúcar são cortadas por cinco anos consecutivos.

    Enquanto as plantas estão crescendo, elas capturam dióxido de carbono. A produção é tão barata que não tem concorrência.

    Spiegel: Recentemente houve tumultos, do Haiti à Índia, devido ao aumento dos preços dos alimentos básicos. A plantação de biomassa para combustível ameaça a produção de grãos?

    Lula: Eu posso entender que os europeus tenham essas dúvidas. Mas este argumento não se aplica à cana-de-açúcar brasileira ou ao nosso óleo de palma. A produção de combustível a partir de commodities alimentares básicos é, na verdade, injustificável. Mas são os Estados Unidos que usam milho como biocombustível, que então deixa de estar disponível como alimento, enquanto os europeus produzem energia a partir da beterraba, canola e trigo. Eu sempre disse aos meus amigos europeus que não vale a pena reestruturar seus sistemas agrícolas bem organizados para produção de biocombustível. Nós, e os africanos, podemos fazer um trabalho bem melhor nesse sentido. A União Européia deve dar ao Terceiro Mundo a chance de produzir biocombustível. Além disso, nós não devemos esquecer que o custo mais alto do petróleo e dos
    fertilizantes também contribui para o preço mais alto dos alimentos. Isso é encoberto.

    Spiegel: Mas a ampliação das terras agrícolas dedicadas à cana-de-açúcar tira espaço de plantações de milho e soja.

    Lula: Nós temos abundância de terra -280 milhões de hectares de terra arável-, assim como temos abundância de sol e água. A cana-de-açúcar é cultivada em apenas 3% desta área. O Primeiro Mundo deve parar de subsidiar sua própria agricultura e suspender as altas tarifas protecionistas sobre as importações.

    Spiegel: O governador do Estado do Mato Grosso, o maior produtor de soja do mundo, disse que mais floresta tropical precisa ser derrubada para atender à demanda por alimento, especialmente na China. O alto consumo de carne e soja nas economias emergentes leva à destruição do meio ambiente no Brasil?

    Lula: Isso não é verdade. A região Amazônica não é adequada para pasto de gado. E o solo não é bom nem para cana-de-açúcar e nem para soja.

    Spiegel: Mas o corte e queima ilegal continua.

    Lula: Nós reforçamos nossos controles. O desmatamento caiu quase 60% no Brasil. Só que mais de 22 milhões de pessoas vivem na região amazônica. Elas também querem comer, dirigir carros e usar refrigeradores.

    Spiegel: Governos de esquerda estão no poder em quase toda parte da América do Sul. Mas o continente está dividido em um movimento mais
    social-democrata, liderado por você, e um mais radical, moldado pelo
    presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Ainda restam alguns pontos em comum dentro da esquerda latino-americana?


    Lula: A esquerda na América do Sul ainda usa os mesmos slogans que a esquerda européia usava nos anos 20 e 30. Os políticos adotam uma posição mais radical nos lugares onde há fome e onde as pessoas não têm acesso ao ensino. Este continente foi agitado por golpes militares. Grupos guerrilheiros ainda estavam ativos em muitos países há apenas 20 anos. Hoje todos nós concordamos -com a exceção das Farc na Colômbia- que eleições são a única forma legítima de adquirir poder. As vitórias de Hugo Chávez, Evo Morales na Bolívia e outros, mais recentemente a de Fernando Lugo no Paraguai, significam progresso democrático. Já era hora dos presidentes eleitos serem realmente parte do povo.

    Spiegel: Mas é precisamente Chávez, com seu conceito de socialismo para o século 21, que está interferindo nos assuntos internos de outros países, especialmente na região andina. Ele não está desestabilizando toda a região?

    Lula: Ele talvez tenha problemas dentro de seu próprio país. Chávez é sem dúvida o melhor presidente da Venezuela nos últimos 100 anos. Todavia, ele tem bem menos influência do que as pessoas dizem. A Europa não tem necessidade de se preocupar com a esquerda na América Latina.

    Spiegel: Uma guerra quase estourou recentemente entre a Colômbia e o Equador.

    Lula: E foi onde Chávez provou ser um pacificador. Felizmente, a guerra na América Latina geralmente é travada apenas com palavras. A língua é nossa arma mais poderosa. Nós falamos demais!

    Spiegel: Mas os "hot spots" na América do Sul não podem ser negados. Há uma ameaça de escalada na violência na Bolívia porque as províncias ricas estão buscando declarar sua autonomia. O senhor não pode exercer sua influência para prevenir maior derramamento de sangue?

    Lula: O Brasil, juntamente com a Argentina e a Colômbia, formaram o Grupo de Amigos da Bolívia para ajudar o país. Quando o companheiro Evo estiver pronto para negociar, nós estaremos prontos para intermediar negociações.

    Spiegel: O senhor adora Fidel Castro e o visitou em janeiro. Agora o irmão dele, Raúl, anunciou reformas econômicas. O Brasil pode ajudar o país a democratizar seu sistema?

    Lula: Eu respeito o caminho que Cuba optou por seguir. Raúl está provando ser um sucessor capaz. Nós gostaríamos de ajudá-lo. Especialistas agrícolas brasileiros plantarão em Cuba 20 mil hectares de soja, que será a primeira plantação desse tipo na ilha. Nós também estamos construindo estradas e envolvidos na produção de produtos farmacêuticos. Os cubanos tem um alto nível de educação, e agora é hora deles criarem a base para promover o próximo grande passo de desenvolvimento.

    Spiegel: O senhor mantém uma amizade com os irmãos Castro e ainda assim tem um relacionamento excelente com o presidente americano George W. Bush. Como o senhor consegue este ato de equilibrismo?

    Lula: Agora eu sei me mover entre campos políticos. Quando todos no mundo odiavam (o líder líbio Muammar) Gaddafi, eu fiz uma visita oficial a ele. Aquilo causou alvoroço -Lula está visitando o diabo!

    Spiegel: É possível estar na esquerda latino-americana sem se rebelar contra os norte-americanos?

    Lula: Há sempre um certo preço associado a ser uma grande potência, e isso também se aplica a nós, como gigante econômico da América do Sul. Os Estados Unidos sempre tentaram dominar a América Latina. Na Bolívia, o embaixador americano mobilizou as organizações internacionais de ajuda para difamar Evo Morales. Aqueles que agem dessa forma fazem inimigos. Eu aconselhei Bush a apoiar, em particular, a América Central e o Caribe com ajuda de desenvolvimento.

    Spiegel: O Brasil e a China, duas potências econômicas em ascensão, entraram em uma aliança estratégica. Até o momento, isso levou os chineses a comprarem suas matérias-primas e inundarem o mercado com produtos baratos. O senhor não esperava mais deles?

    Lula: Todos os países têm problemas com o poder econômico da China. Nós reconhecemos a China como uma economia de mercado, para que pudesse participar das negociações na Organização Mundial do Comércio. Agora devemos assegurar que a China cumpra suas obrigações.

    Spiegel: A Alemanha perdeu influência política e econômica no Brasil nos últimos anos. A França, Espanha e até mesmo a Holanda estão investindo mais. Como o senhor explica isso?

    Lula: Eu entendo que os alemães se voltaram mais para o Leste após a queda do muro. Mas agora eles precisam voltar a prestar mais atenção ao Brasil e à América do Sul. Eles precisam pensar no potencial que esta região terá daqui 10 ou 15 anos. Nós planejamos construir três novas usinas hidrelétricas e duas usinas nucleares, assim como um trem de alta velocidade entre Rio e São Paulo. Os espanhóis já estão envolvidos. Eu gostaria de mostrar à chanceler alemã Angela Merkel mais do que apenas a capital durante sua próxima visita (de 13 a 15 de maio) ao Brasil. Eu gostaria de levá-la à região amazônica, até os brasileiros de ascendência alemã em Blumenau e a uma visita à Volkswagen.

    Spiegel: Após cinco anos no cargo, o senhor continua muito popular. O senhor planeja concorrer novamente?

    Lula: Dois mandatos bastam. Caso contrário a democracia se transforma em ditadura. A mudança faz bem para o país.

    Spiegel: Mas então o senhor não acompanhará a final entre Alemanha e Brasil, na Copa do Mundo de 2014, como o anfitrião no Estádio do Maracanã, no Rio!

    Lula: Certamente não como presidente, mas estarei lá como torcedor de futebol, o que eu prefiro.

    Spiegel: Sr. presidente, muito obrigado pela entrevista.

    Tradução: George El Khouri Andolfato


    Escrito por hsliberal às 00h10
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    UOL, Mídia Global, 24/05/2008
    Consumidores brasileiros vivem período de prosperidade
    Andrew Downie
    Em São Paulo


    Os consumidores nos Estados Unidos estão apertando o cinto; os brasileiros estão gastando como se não existisse palavra em português para recessão.

    Os americanos de classe média estão cercados por uma crescente onda de ansiedade; a classe média brasileira está crescendo.

    Até mesmo alguns americanos que dispõe de bom crédito não conseguem encontrar uma hipoteca; os brasileiros estão contraindo empréstimos como nunca antes.

    "No passado, quando os Estados Unidos espirravam, o Brasil pegava uma pneumonia, mas este não é mais o caso", disse Marcelo Carvalho, diretor executivo de pesquisa do Morgan Stanley no Brasil.

    Graças a uma recém-encontrada estabilidade econômica e vitalidade, aqui e em grande parte da região, a América Latina parece cada vez menos acorrentada à sorte dos Estados Unidos. "Há um grande descolamento ocorrendo", disse Carvalho. "A economia brasileira está crescendo rapidamente enquanto a americana já está, ao nosso ver, em recessão."

    O Brasil está se saindo bem graças a uma combinação de fatores. Os preços elevados das commodities, puxados pela demanda da China, provocaram a entrada de grande volume de dinheiro e criaram empregos.

    O investimento estrangeiro dobrou no ano passado, para US$ 34,6 bilhões, grande parte no mercado de ações, que é um dos que mais crescem no mundo. A moeda está forte, atingindo uma alta de nove anos frente ao dólar na semana passada, e provavelmente valorizará ainda mais dada a decisão no mês passado da Standard & Poor's de elevar o Brasil ao grau de investimento.

    A inflação, que encerrou 2007 a 4,5%, está sob controle e a economia está crescendo de forma consistente, apesar de não de forma espetacular, graças à administração competente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Seu abrangente programa assistencial distribui dinheiro para os pobres gastarem. Os salários estão subindo e o desemprego está caindo.

    Resumindo, mais brasileiros têm mais dinheiro.

    Lula chama isso de milagre. Mas na verdade, é algo que há muito era escasso na América Latina: confiança.

    Com tanto o governo quanto os analistas estrangeiros insistindo que a economia pode suportar os efeitos de uma desaceleração global, bancos e empresas estão confiantes o suficiente para emprestar aos consumidores a prazos mais longos do que antes. Ao mesmo tempo, uma classe média cada vez mais segura está confiante o suficiente para tomar empréstimos -a ponto, segundo os analistas, do consumo doméstico ter superado as exportações como principal motor econômico do Brasil, reduzindo o efeito do que acontece, digamos, nos Estados Unidos.

    Devido aos booms econômico e de crédito, bens caros como imóveis, carros e eletrodomésticos estão dentro do alcance de até 20 milhões de brasileiros a mais do que antes, estimou Érico Ferreira, o presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento.

    "Pessoas que não eram consumidoras agora são consumidoras", disse Ferreira. "Todos estão levando mais dinheiro para casa. Se você quiser crédito, você consegue."

    Uma visita a qualquer shopping center ou revendedora de carros sugere que é verdade. As lojas estão lotadas de compradores ávidos em gastar. As vendas de aparelhos domésticos aumentaram 17% do ano passado, a de celulares aumentou 21% e as vendas de computadores notebook e televisores de plasma e LCD quase triplicaram.

    Para itens como carros e imóveis, onde o pagamento em dinheiro raramente é viável, os números são ainda mais reveladores. O número de imóveis comprados com financiamento subiu 72% no ano passado, atingindo seu maior número já registrado, e a quantidade de dinheiro sendo emprestada para compra de veículos saltou 45%.

    A explosão de crédito é um fenômeno regional, segundo os economistas.

    Apesar dos países latino-americanos terem pouca tradição de crédito ao consumidor, a quantidade de dinheiro que está sendo emprestada está crescendo rapidamente, disse Gregorio Goity, um economista argentino e ex-chefe da Federação Ibero-Americana de Associações Financeiras.

    "Os totais gerais são baixos porque vêm de pontos de partida baixos", disse Goity.

    "Mas não consigo pensar em algum que não esteja crescendo", ele acrescentou, se referindo à América Latina. "Pessoas que não tinham uma geladeira, uma máquina de lavar, uma máquina de costura, um aquecedor para o inverno, um ar-condicionado para o verão, agora podem comprá-los e melhorar substancialmente sua qualidade de vida."

    A nova realidade é mais clara no Brasil -onde a quantidade de dinheiro lançada em cartões de crédito aumentou 20% no ano passado- e particularmente no mercado de automóveis. Um recorde de 2,46 milhões de veículos saíram dos pátios das fábricas no ano passado, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotivos. As vendas cresceram 31% até o momento neste ano.

    O motivo, concordam Lula e especialistas, é a mudança nos planos de pagamento. Até recentemente, as taxas de juros eram tão altas e a economia do Brasil tão imprevisível que os bancos não emprestavam por períodos prolongados.

    As taxas de juros estavam a 25% quando Lula assumiu o governo em 2003, mas caíram para 11,25% no ano passado, ainda entre as mais altas do mundo, mas baixa para os padrões brasileiros. E apesar do medo da inflação ter levado o Banco Central do Brasil a aumentar suas taxas em 0,5 ponto percentual no mês passado, o primeiro aumento em mais de dois anos, os pagamentos de juros da maioria dos consumidores permanece administrável.

    Uma taxa de financiamento de imóvel típica é de 12% ao ano, para automóvel é entre 14% e 15%, e para bens de consumo varia de 42% a 43%, disse Félix Cardamone, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Cartão de Crédito e Serviços.

    Os financiamentos de imóveis podem ser pagos em 30 anos, os financiamentos de carros podem ser pagos em sete e de aparelhos domésticos podem ser pagos em até dois anos.

    "Há dois milagres básicos: primeiro, o aumento da renda das pessoas, e o segundo, o aumento do número de prestações mensais que uma pessoa pode fazer para pagar o carro", disse Lula no mês passado.

    "E o que a indústria automotiva fez? Ela aumentou o número de prestações de 36 ou 24 para 72, para 82. E o que aconteceu? O que aconteceu é que a indústria automotiva corre o risco de atingir capacidade plena de produção no próximo ano. As pessoas estão esperando na fila para comprar um carro."

    Ainda assim, o número de brasileiros que dispõem de crédito permanece relativamente baixo. O volume de crédito no Brasil em fevereiro foi de 34,9% do produto interno bruto.

    O crédito doméstico nos países da zona do euro para o setor privado era de 116% do PIB, segundo números do Banco Mundial de 2006; nos Estados Unidos era de 201% e no Japão era de 419%.

    Ferreira previu que no Brasil a proporção de dívida pessoal em relação ao PIB pode passar para entre 38% e 40% neste ano e pode aumentar 3% adicionais a cada ano até 2013. Ela poderia subir mais caso as taxas de juros venham a cair para valores de um único dígito -um cenário improvável, ele acredita- porque milhões de brasileiros atualmente se recusam a pagar o que consideram taxas elevadas.

    Sérgio Troczynski era um deles. O consultor comercial de 24 anos finalmente comprou um Fiat Punto prateado em abril e realizou seu sonho de ser proprietário de um carro zero.

    Troczynski é típico do novo clã do crédito. Há poucos anos ele não podia arcar com as prestações exorbitantes. Hoje, entretanto, ele recebe o suficiente para dar uma entrada em seu veículo dos sonhos -e em um aparelho de televisão de 32 polegadas. Ele pagará o equivalente a US$ 455 por mês ao longo de 36 meses pelo carro e cerca de US$ 121 pelo televisor por 12 meses.

    "Eu só consegui fazer isso graças ao financiamento. Eu não teria outra forma de fazer isso", disse Troczynski. "Antes os bancos não tinham confiança e nem os vendedores. Está muito mais fácil obter crédito e isso facilita a compra de um carro, de uma casa, para pagar ao longo de anos."

    "O crédito está lá, disponível", disse Divanir Gattamorta, um professor de música que estava com sua esposa em um shopping center em um domingo recente. "Mas conseguimos economizar o suficiente e compramos um carro." Gattamorta disse que eles não queriam financiar porque as taxas de juros eram abusivas.

    Os especialistas reconhecem que as taxas atuais afugentam muitas pessoas e dizem que estas queixas simplesmente confirmam o potencial de crescimento futuro -se e quando as taxas de juros caírem ainda mais. "Se as taxas de juros caírem para um único dígito, o efeito seria astronômico", disse Cardamone. "Eu não duvido que quanto mais caírem as taxas de juros, mais as pessoas estarão predispostas a tomarem empréstimos."

    Tradução: George El Khouri Andolfato


    Escrito por hsliberal às 00h05
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    Brasil promove organismo comum de defesa sul-americano


    UOL, Mídia Global, 24/05/2008
    Brasil promove organismo comum de defesa sul-americano
    Doze países constituem o bloco regional do Unasul

    Jorge Marirrodriga
    Em Buenos Aires


    Com perseverança se alcança qualquer fim. Essa é pelo menos a intenção do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, principal promotor da União de Nações Sul-Americanas (Unasul, ou Unasur para os países de língua espanhola), que foi criada oficialmente na sexta-feira (23/05) em Brasília com a assinatura e a presença dos demais presidentes da região. Ninguém quis lembrar na sexta-feira a recém-nascida e imediatamente defunta União Sul-Americana, fundada em 2005 em Lima pelos mesmos países e que nestes dois anos e meio não deu resultados.

    A união lançada na sexta-feira contém duas diferenças importantes em relação ao projeto anterior: é o Brasil quem toma a iniciativa, e a ata de fundação já nasce com um projeto concreto, a criação de um Conselho Sul-Americano de Defesa. Os membros se comprometeram a assinar em seis meses um tratado de segurança.

    Lula definiu os objetivos: "A América do Sul tem capacidade para mover o tabuleiro político de todo o mundo em benefício de nossas nações". Quer dizer, que em um momento em que o Oriente Médio e a Ásia chamam a atenção mundial, a América do Sul quer ser o ator principal: "Mais de 300 milhões de pessoas que se beneficiam de uma excepcional fase de crescimento e de programas bem-sucedidos de inclusão social transformam a região em um grande mercado de consumo", afirmou Lula.

    Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves


    Escrito por hsliberal às 00h01
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