Estante


Folha de S. Paulo, OPINIÃO, São Paulo, quinta-feira, 03 de julho de 2008

 

CLÓVIS ROSSI

Queria a Lua

PARIS - O título de hoje é roubado de Pietro Ingrao, veteraníssimo comunista italiano (93 anos), ex-presidente da Câmara dos Deputados. Seu livro "Pedía la Luna" está sendo lançado agora na Espanha, depois de ter saído na Itália.

Explica o título o próprio Ingrao, em entrevista publicada sábado por Babélia, o suplemento cultural do jornal "El País": "Na minha terra [Lenola, região do Lázio], nas grandes noites estreladas de verão e primavera, dá a impressão de que se pode pegar a Lua, quando sai entre as montanhas. Quando pequeno, queria pegá-la, como contei em um livro."

"Uma noite, na hora de ir para a cama, não queria fazer pipi, como fazia sempre, e minha mãe, um pouco desesperada, chamou meu pai, que me disse, brincando: O que você quer de presente para fazer pipi? Olhando pela janela na direção do vale e das montanhas, vi a Lua brilhando sugestivamente e lhe disse: Quero a Lua".

"Assim, a Lua se converteu em símbolo de algo muito bonito que não se consegue agarrar."

Ingrao cresceu e escolheu uma nova Lua para perseguir: o comunismo como "símbolo de algo muito bonito". Pode-se odiar a sua escolha, que ele, aliás, admite ter sido um fracasso. Mas não dá para negar que o mundo moderno tornou-se esquivo demais à busca da Lua, qualquer Lua.

Há muita gente, suponho, que tem lá suas "luas" individuais ou coletivas. O time de futebol da Espanha que acaba de ganhar a Eurocopa, após 44 anos, assumiu um slogan mercadológico e provou que "impossible is nothing".

O que quero dizer é que no mundo político -e, por extensão, na administração de países, cidades, Estados, regiões-, já não se vê ninguém querendo agarrar a Lua. Na melhor das hipóteses, administram o possível, nada mais. Talvez, se quisessem a Lua, iriam algo além do possível. Talvez.



Escrito por hsliberal às 22h37
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Quanto você ganha? Isso não é segredo na Escandinávia

Jeffrey Stinson*
Em Londres


Todo ano, a Suécia publica as declarações de imposto de renda de todos os seus cidadãos. Assim como a Finlândia e a Noruega. E ninguém liga muito para isso.

Em contraste, a lei dos Estados Unidos proíbe divulgar as informações tributárias de qualquer pessoa. Imagine o barulho que haveria se o IRS (Internal Revenue Service, a Receita Federal americana) colocasse os dados do imposto de renda online, de forma que colegas de trabalho, vizinhos e sogras pudessem ver quanto dinheiro alguém ganha.

Isso aconteceu na Itália no começo desse ano, quando o governo do primeiro-ministro Romano Prodi, que estava deixando o poder, publicou o imposto de renda dos contribuintes durante algum tempo na Internet, e os jornais pegaram a lista.

Magnus Graner, secretário de Estado do Ministério da Justiça da Suécia, diz que as declarações de imposto de renda ficam disponíveis para consulta todo ano em uma série de livros ou "calendários de impostos".

"Se é isso que você deseja, pode ver quanto seu cunhado ganhou, quanto seu vizinho ganhou", diz Graner. "Não é todo mundo que faz isso, apesar de fazermos piada e perguntarmos: 'você já checou quanto seus futuros sogros ganham?'. Ninguém na minha família fez isso - acho que não."

Duas semanas atrás, a Suécia publicou as declarações de renda dos assalariados comuns. Em novembro ou dezembro, os suecos poderão ver quanto que os ricaços ganharam - com seus rendimentos de dividendos e outros investimentos - e quanto pagaram de impostos em 2007.

É quando os jornais suecos tradicionalmente publicam informações sobre o patrimônio financeiro de CEOs, celebridades e outras pessoas ricas. "Não há nenhuma reclamação em relação a isso", diz Graner.

A política sueca de tornar pública a declaração de imposto de renda - como é na Finlândia e na Noruega - vem de uma tradição de abertura de informações e transparência de governo, exceto nos casos de segurança nacional e em alguns aspectos das investigações criminais.

"O direito de acesso público a documentos está estabelecido na constituição", diz Graner sobre a prática que a Suécia adota desde o século 18.

Tornar a informação pública é uma demonstração da tradição escandinava de "jantelag", que pode ser traduzida grosseiramente como "ninguém é melhor do que ninguém", diz Veera Heinonen, porta-voz da Embaixada da Finlândia em Londres.

"A Finlândia é um país muito igualitário, e uma sociedade com impostos muito altos, então fornecemos demonstrativos e balanços", diz Heinonen.

Ela diz que os rendimentos das pessoas podem ser uma boa fonte de fofoca. Se alguém fica constrangido? "Bem, talvez os presidentes das empresas", diz ela.

Ida Ragnarsson, 22, de Helsingborg, Suécia, diz que ela não se importa se outras pessoas vêem o quanto ela ganha. Ragnarsson, que trabalha orientando profissionais de vendas, diz que já verificou os ganhos de sua família. "É divertido saber quanto que eles ganham", diz.

Os italianos não acharam o mesmo em abril, quando Vincenzo Visco, ministro da economia que liderou a guerra contra a sonegação na Itália, publicou as declarações de imposto de renda no site do ministério.

O gesto, disse Visco à imprensa italiana, era para encorajar mais "transparência e democracia".

A informação foi rapidamente removida do site, mas ficou disponível por tempo suficiente para que os jornais a agarrassem e publicassem os números sobre os ricos.

Entre os rendimentos publicados estavam o de Silvio Berlusconi, político conservador e figura poderosa na mídia, que substituiu Prodi como primeiro-ministro. Seus rendimentos de 2005: US$ 43,5 milhões, sobre os quais ele pagou US$ 18,6 milhões em impostos.

Philip Lindquist, 19, estudante de Estocolmo, diz que ele não entende o motivo do rebuliço na Itália. "O modelo sobre o qual a Suécia está construída demanda isso", a informação pública, diz ele.

A Noruega teve audiências parlamentares há alguns anos para decidir se deveria manter a informação pública, mas nada mudou, diz Marietta Christopheren, na Embaixada norueguesa de Londres.

É muito popular, diz ela. Os noruegueses podem olhar nos jornais ou websites e "procurarem pelos detalhes dos impostos das celebridades, dos vizinhos ou parentes", diz.

Os americanos provavelmente se sentiriam violados, diz Marc Rotenberg do Centro de Privacidade Eletrônica de Informações em Washington.

Isso não vai acontecer, diz o porta-voz da Receita Federal. "A lei federal proíbe a publicação desse tipo de informação privada."

*Christoffer Braw, em Estocolmo, contribuiu com a reportagem.

23/06/2008

Tradução: Eloise De Vylder



Escrito por hsliberal às 00h21
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Escrito por hsliberal às 00h04
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São Paulo, domingo, 01 de junho de 2008

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TENDÊNCIAS/DEBATES

Os impostos e o princípio da solidariedade

PATRUS ANANIAS


É preciso estabelecer parâmetros para garantir uma arrecadação consistente e em bases justas e equilibradas

O BRASIL vive um momento histórico, tendo conseguido aliar várias dimensões de um amplo projeto de desenvolvimento integral e integrado: temos o controle da inflação, estamos alcançando bons índices de crescimento econômico, as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) reforçam a infra-estrutura, as políticas sociais estão alcançando inegável êxito nacional de melhoria da qualidade de vida dos pobres e reconhecimento internacional.
Manter, consolidar e ampliar essas conquistas é um esforço que exige recursos -e, a respeito da fonte desses recursos (os impostos), precisamos de uma conversa franca. É preciso estabelecer parâmetros para garantir uma arrecadação consistente e em bases justas e equilibradas, que estimule e promova o crescimento.
Um sistema tributário justo e eficiente é pressuposto para promover justiça social. Foi essa a opção, entre outros, dos países escandinavos, que fixaram condições de ampliar a capacidade de investimento do Estados, com clara opção pela promoção do bem-estar social e articulação do desenvolvimento em bases inclusivas.
A fórmula adequada ao princípio da justiça tributária parece simples: quem pode mais paga mais, quem pode menos paga menos e quem não pode nada não paga nada; recebe agora para contribuir mais à frente. É o princípio da solidariedade, consagrado como um valor em nosso texto constitucional, no artigo 3º, inciso I, e materializado tributariamente no artigo 145, parágrafo 1º, por meio do instituto da capacidade contributiva.
Mas precisamos aperfeiçoar nosso sistema tributário, de modo a aproximá-lo mais desse modelo. As bases estão dadas, e sobre elas há consenso: trabalhamos pela garantia de estabilidade da economia, de preservação das condições de investimento para os empresários. Os limites, que em momento nenhum se confundem com limites à capacidade produtiva e de investimento, são dados pela contribuição efetiva para o bem comum.
O montante de nossa carga tributária (35,5%) está um pouco abaixo da média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que é de 36,9%. Mas temos sérios problemas em sua composição e estrutura, o que reforça nossa necessidade de reformulação do sistema para estabelecer bases mais justas de taxação.
Coloca-se, nessa discussão, a questão de impostos sobre lucros, sobre propriedades urbanas e rurais não produtivas, sobre grandes fortunas. Faz sentido taxar mais o lucro, a propriedade e a renda e menos o consumo básico, o trabalho, a produção.
Na composição de nossa carga tributária, os impostos indiretos têm peso muito maior que os impostos diretos, o que traz um grave problema, porque os impostos indiretos -ISS, ICMS, IPI- promovem o repasse aos produtos, e os consumidores pagam indistintamente o mesmo imposto, independentemente da renda. Os impostos diretos, como o Imposto de Renda, como foi a CPMF, trazem o caráter progressivo, são mais justos, proporcionais à renda das pessoas.
Outra vantagem é a transparência: os impostos diretos são mais visivelmente fiscalizados, o contribuinte sabe exatamente quanto está pagando.
A característica que torna esses impostos mais impopulares é a mesma que confere ao sistema maior possibilidade de eficiência e eficácia, pois facilita não só a fiscalização por parte do Estado mas também por parte da sociedade, que é um outro valioso princípio de um sistema tributário justo. Além de saber exatamente quanto está pagando, o contribuinte tem o direito de saber como está sendo utilizado o recurso: para onde é destinado e que resultado tem.
Por isso a necessidade de continuar investindo na melhoria do acompanhamento das políticas, por meio de aperfeiçoamento de mecanismos de fiscalização e de produção de indicadores que permitam o monitoramento e a avaliação sistemática dos efeitos das políticas. O governo federal tem se empenhado muito nesse sentido, e precisamos avançar sempre mais.
Uma sociedade construída com base em um conceito de justiça tributária que produza justiça social rende benefício a todos, porque promove coesão social e gera vínculos de segurança, diminuindo a marginalidade e a violência. É um modelo que também estimula o dinamismo econômico, porque amplia o mercado interno. Assim, possibilitará uma vida mais rica e mais plena para todos.

PATRUS ANANIAS , 56, advogado, é o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Foi prefeito de Belo Horizonte (1993-1996).


Escrito por hsliberal às 11h15
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Ano VI - nº 151
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Plantado no desmate

Estimado amigo e amiga do MST,

A aprovação da Medida Provisória (MP) 422 pelos deputados federais na noite de terça-feira, poucas horas após a saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente, confirma que a defesa da biodiversidade vem perdendo a batalha contra o desmatamento e o desenvolvimento a qualquer custo, defendido por diversos setores do governo.

A recém aprovada MP 422 pode ser traduzida como a “legalização da grilagem”. Ela trata da dispensa de licitação para a venda de terras públicas com até 1.500 hectares – limite ampliado em mil hectares – sob a tutela do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

Agora, a MP 422 aguarda a companhia do Projeto de Lei proposto pelo senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), o PL 6.424, outro grande incentivo à devastação, que reduz de 80 para 50% a exigência de reserva legal (área de preservação de floresta) em propriedades na Amazônia.

Ambas as propostas evidenciam a prioridade do governo federal: abrir terreno para o agronegócio, seja ele qual for. O setor do agronegócio é hoje protagonista do grande processo de devastação da Amazônia que, nos últimos cinco meses de 2007, excedeu a medida de 3.000 quilômetros quadrados de floresta, de acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente.
 
Não é por acaso que os ventos apontam para o Norte e o agronegócio segue essa direção. É na região amazônica que está concentrado o maior volume de terras devolutas do país. Essa é a base de um processo de ocupação e devastação que, aliado ao uso da máquina estatal para fins privados, abre espaço para as diversas frentes do agronegócio em destaque no mercado, em especial o extrativismo de madeira, pecuária e a monocultura da soja.
 
Trocar a floresta por boi é projeto antigo. Sabe-se que a iniciativa de ocupar a região com gado remonta à década de 1950 e começou a dar passos mais firmes durante o governo militar, quando em 1966 foram aprovados os primeiros projetos agropecuários para região.
 
A Amazônia sofre hoje com uma dose cavalar de ocupações ilegais realizadas por latifundiários pecuaristas e produtores de soja, desenvolvidas por meio da grilagem de terras e pactuada com a pilhagem de madeira. Os últimos dados sobre o avanço da produção de gado, por exemplo, são emblemáticos e assustadores.
 
O montante de áreas usadas para a pecuária na região é de 32,6 milhões de hectares, o que corresponde à soma das áreas dos estados de São Paulo, Rio e Espírito Santo. Dos 30,6 milhões de hectares devastados entre os anos de 1990 e 2006, 25 milhões foram transformados em pasto.
 
O roteiro é simples: primeiro é preciso cercar a terra adquirida junto ao Incra – geralmente de maneira ilegal –, vende-se a madeira da área e então, depois de uma pequena queimada para construir pasto, toma-se a terra para a criação de gado ou, com mais investimento, para a plantação de soja.
 
Um esquema que conta também com empresas exportadoras brasileiras e estrangeiras. Um terço da carne produzida nessas áreas ilegais, bem como grande parte da madeira roubada e da soja, vão para fora do país. Ou seja, parte do superávit da balança comercial do país, principal “benefício” do modelo do agronegócio, é sustentado na devastação da Amazônia.
 
O que evidencia a disposição do agronegócio no Brasil: usar a terra que pertence a todo o povo em função única e exclusivamente do lucro, sem levar em conta questões ecológicas ou de outra ordem, atentando contra condições humanas de sobrevivência.    
 
O problema da pilhagem de madeira e ocupação pelo gado está longe de ser resolvido. Pelo contrário. Agora a investida desses latifundiários é descaradamente travestida de assentamento, a exemplo das denúncias que marcaram o fim de 2007, sobre projetos irregulares no Oeste do Pará, os quais, em vez de abrigarem agricultores, estariam sendo explorados ilegalmente por madeireiras.
 
O escândalo que revelou a existência de um pacto entre madeireiras e o Incra do Pará, acusado de destinar áreas da floresta para assentamentos falsos que são depois exploradas pelos latifundiários, há muito vinha sendo denunciado pelo MST.
 
Nessa ciranda, a monocultura da soja muitas vezes trabalha em parceria com a pecuária, já que o grão se expande por áreas de pastagem degradada. O cultivo já devasta o cerrado e avança sobre a Floresta Amazônica.
 
Encabeçando esse processo estão o capital financeiro e as grandes transnacionais do agronegócio, como Cargill, Bunge, Monsanto, Syngenta, Stora Enzo e Aracruz, que orientam um modelo de produção agrícola baseado na expulsão dos trabalhadores rurais, indígenas do campo e na destruição do meio ambiente.
 
Entre 1995 e 2003 a produção de soja cresceu mais de 300% nos estados do Pará, Tocantins, Roraima e Rondônia e essa expansão tem previsão de continuidade até 2020. A área de cultivo de soja na Amazônia passou de 20 mil hectares no ano de 2000 para 200 mil em 2006.
 
Mais impressionante e incriminador são os dados do aumento da produção em Santarém, no Pará. Um claro exemplo da relação dos investimentos dessas transnacionais com a devastação de nossa floresta. A área colhida em Santarém saltou de 200 hectares em 2002, para 4,6 mil em 2003 e hoje corresponde a 16 mil. Curiosamente, foi no ano de 2003 que o porto construído na cidade pela Cargill, destinado para o escoamento de grãos, começou a operar. Porto que, aliás, foi instalado ilegalmente, pois à época não apresentou o Estudo de Impacto Ambiental que é precedente obrigatório para tal empreendimento, segundo a Constituição de 1988.

As transnacionais buscam agora introduzir no mercado novas sementes transgênicas, tornando ainda mais acirrado o avanço sobre a floresta. E isso já está acontecendo. Amargamos recente liberação de duas variedades de milho transgênico da Monsanto e da Bayer que agora poderão ser comercializadas.
 
A decisão do CNBS (Conselho Nacional de Biossegurança) põe em risco um longo trabalho de conservação a campo de centenas de variedades de milho adaptadas a diferentes regiões e a diferentes usos e cultivadas livremente pelos agricultores.
 
A conseqüência mais grave diz respeito à soberania alimentar do país. Isso porque o milho está na base da estrutura alimentar brasileira e as variedades transgênicas a serem cultivadas atendem prioritariamente à produção de ração e agrodiesel. Mesmo se direcionadas à alimentação, o alerta permanece, haja vista a desaprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) quanto ao processo de liberação, por não conter dados que comprovassem a segurança do grão para o consumo humano.
 
Há anos o movimento vem reivindicando que a criação de assentamentos seja concentrada em áreas com maior número de acampamentos, como no Nordeste, Sul e Sudeste. Enxergamos as florestas como patrimônio da humanidade e sabemos que os maiores prejudicados com a devastação são os camponeses. Tal posicionamento encontra referência em nossas ações, que se contrapõem ao modelo agroexportador. Apostamos na agricultura camponesa desenvolvida em pequenas propriedades, com base na agroecologia e sabemos que são os camponeses os guardiões de nossa terra
.

Secretaria Nacional do MST



Escrito por hsliberal às 11h17
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UOL, Mídia Global, 12/05/2008
Lula tem sorte, mas Congresso está paralisado
Jonathan Wheatley

Parece que as coisas não poderiam estar melhores para Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Brasil. Depois de anos de crescimento lento, a economia está acelerando alegremente. Investimentos, crédito e empregos estão em níveis que não eram vistos há décadas. O consumo sobe às alturas e também a popularidade de Lula da Silva.

Seu predecessor, que forneceu a estabilidade que tornou Lula tão popular, mas colidiu com a má sorte e a má administração no setor elétrico, deixou o cargo conhecido como "o presidente do blecaute".

Graças à Standard & Poor's, agência de análise de risco, que surpreendeu muitos ao elevar a classificação da dívida soberana do Brasil no dia 30 de abril, Lula parece que vai sair no final de 2010 como "o presidente do grau de investimento".

Isso se sua extraordinária sorte política se mantiver. Há apenas dois anos, perto do final de seu primeiro mandato de quatro anos e envolvido no caso do mensalão - um escândalo sobre supostos subornos por votos no Congresso - ele foi encarado não só como não elegível como se levantou a possibilidade de que fosse submetido a um impeachment a qualquer momento.

O presidente conseguiu minimizar aquele escândalo e conquistar uma vitória esmagadora em outubro de 2006. Com dois anos e meio à frente da próxima eleição presidencial - na qual, sob a legislação atual, Lula não poderá concorrer - ninguém espera que sua sorte sofra qualquer revés semelhante. No entanto um dos legados do escândalo do mensalão foi o de deixar as coisas imobilizadas no Congresso, ameaçando o crescimento econômico que fez de Lula o mais popular presidente do Brasil na memória viva.

"O governo não tem uma agenda legislativa porque decidiu não ter uma," diz Amaury de Souza, analista político no Rio de Janeiro. "Sua maior prioridade foi a de criar uma coalizão forte o suficiente para proteger-se do tipo de ameaça de impeachment que o escândalo do mensalão representa."

A política econômica no Brasil, enquanto isso parece ter sido dividida ao meio.

Do lado monetário ela é rigidamente ortodoxa. O Executivo determina ao banco central uma meta de inflação (atualmente de 4,5% no ano), que o banco persegue por meio das taxas de juros. Depois de dois anos de cortes ele começou a elevar as taxas de novo no mês passado para conter a inflação, comprovando sua independência de fato frente à oposição pública de vários ministros.

A política fiscal, de outra parte, continua na maior parte não ortodoxa. Economistas têm argumentado há anos que para alcançar duradouras e elevadas taxas de crescimento, o governo precisa reduzir o persistentemente elevado nível de dívida pública e liberar dinheiro para investimentos. Isso exige cortes nos gastos, que são politicamente difíceis, especialmente nas aposentadorias e folhas de pagamentos públicas.

Em vez disso, o governo aumentou seus gastos correntes ao contratar mais servidores públicos, por exemplo, e elevando o salário mínimo nacional acima da taxa de inflação. O gasto público cresce numa taxa anual de 9,4%, segundo economistas do Unibanco, um banco privado, cerca de duas vezes o estimado crescimento da economia para este ano.

Souza argumenta que o incentivo para a alta de gastos tem sido a pressa do governo de garantir uma maioria substancial nas duas casas do Congresso. "Isso tem um gigantesco custo fiscal," ele diz. "Eles precisaram aumentar o número de ministérios para dar empregos aos aliados."

Em seu primeiro mandato, ele indica, Lula teve o apoio de 11 partidos políticos no Congresso. Esse número aumentou desde então, pelo menos no papel, para 14 partidos.

Reduzir gastos é difícil por melhores que sejam os tempos, porque a Constituição de 1988 fecha em torno de 94% dos gastos antecipadamente.

No entanto, existem projetos de lei que poderiam dar início aos cortes, bloqueados no Congresso, em parte porque não poderão ser debatidos antes que legisladores toquem uma série de decretos presidenciais, conhecidos como medidas provisórias, que em algum ponto precisarão ser votadas para se tornarem permanentes.

O presidente usou tais medidas para elevar o gasto público em R$ 25 bilhões (US$ 14,8 bilhões) no final do ano passado e em cerca de R$ 3 milhões nos quatro primeiros meses do ano, embora a Constituição diga que os decretos só podem ser usados para elevar os gastos em tempos de guerra, calamidade ou perturbação pública.

Com o Congresso inativo, dificilmente a política fiscal mudará. Isso pode não ser um problema imediato, enquanto o preço das commodities permanecer elevado e junto do investimento estrangeiro direto, estes continuarem a cobrir o recém-adquirido déficit de conta corrente do Brasil.

Mesmo que tais condições venham a se alterar, Lula da Silva pode ter a sorte suficiente de ter transmitido o poder a um sucessor escolhido.



Tradução: Claudia Dall'Antonia


Escrito por hsliberal às 00h12
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UOL, Mídia Global, 13/05/2008
"Nós queremos entrar para a Opep e deixar o petróleo mais barato", diz Lula
Jens Glüsing e Helene Zuber
da "Der Spiegel"


O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, 62, fala à "Spiegel"
sobre o motivo do Brasil querer ingressar na Opep, o programa de biocombustíveis de seu país e o medo na Europa do deslocamento da América Latina para a esquerda.

Spiegel: Sr. presidente, quando o senhor tomou posse há cinco anos, muitos temiam que o senhor, sendo um ex-líder sindical, pudesse conduzir o país em uma direção socialista. Em vez disso, o senhor adotou políticas econômicas liberais que levaram o país a um crescimento econômico espetacular. O senhor abandonou os princípios de seu passado?

Lula: Como presidente, eu preciso atender a todos. Essa é a força da democracia. Alguém que é eleito pelo povo prestará tanta atenção às necessidades de um banqueiro quanto às de uma criança de rua e de um trabalhador ao buscar um equilíbrio entre seus interesses individuais. Em 2003, nós tivemos que fazer algumas mudanças muito difíceis nas finanças do governo, para que os brasileiros pudessem agora desfrutar de maior estabilidade. Na época, eu usei a confiança que os eleitores depositaram em mim para colocar nosso orçamento nacional em ordem.

LULA FALA À "DER SPIEGEL"
AFP

Acompanhe trechos da entrevista:

  • "Tivemos que fazer algumas mudanças muito difíceis nas finanças do governo para que os brasileiros pudessem agora desfrutar de maior estabilidade"

  • "Ninguém pode eliminar as injustiças de séculos em apenas oito anos"

  • "Nós queremos entrar para a Opep e tentar deixar o petróleo mais barato"

  • "A União Européia deve nos dar a chance de produzir biocombustível"

  • "O Primeiro Mundo deve parar de subsidiar sua própria agricultura e suspender as altas tarifas protecionistas sobre as importações"

  • "A esquerda na América do Sul ainda usa os mesmos slogans que a esquerda européia usava nos anos 20 e 30"

  • "A Europa não precisa se preocupar com a esquerda na América Latina"

  • "Os cubanos tem um alto nível de educação e agora é hora deles criarem a base para promover o próximo grande passo de desenvolvimento".

  • "Dois mandatos bastam. Caso contrário a democracia se transforma em ditadura. A mudança faz bem para o país"
  • Spiegel: Seu país pagou suas dívidas com o Fundo Monetário Internacional e, desde, então se tornou um lugar seguro no qual investir. Outros 20 milhões de cidadãos ingressaram na classe média. Todavia, ainda há uma enorme desigualdade entre ricos e pobres entre os 190 milhões de habitantes do Brasil. Como o senhor espera superá-la?

    Lula: Ninguém pode eliminar as injustiças de séculos em apenas oito anos. Mas nós encontramos uma forma de superar a pobreza que não é cara. Nós pagamos aos jovens um subsídio para que possam ir à escola e aprender uma profissão. Cerca de 400 mil jovens pobres que no passado nunca teriam uma chance de ter ensino superior agora estão recebendo bolsas e mais de 40% deles são negros.

    Spiegel: Uma guerra das drogas está transcorrendo em suas grandes cidades. Gangues armadas controlam grande parte das favelas no Rio de Janeiro. O governo perdeu o controle sobre as favelas?

    Lula: Só a polícia não é suficiente para resolver o problema. O próprio governo deve fazer sua presença ser sentida e fornecer oportunidades, e então a violência diminuirá. Este é o motivo para estarmos limpando as maiores favelas de todo o país. Nós estamos fornecendo para elas água encanada, energia e sistemas de esgoto, escolas, hospitais e bibliotecas.

    Enquanto nossa economia continuar crescendo a taxas entre 4% e 6% a longo prazo, nós poderemos continuar pagando por isso. Nós destinamos US$ 270 bilhões (R$ 449 bi) para a melhoria das favelas, assim como para a modernização da nossa infra-estrutura -nossos portos, estradas, ferrovias e aeroportos-, tudo sem realizar novos empréstimos.

    Spiegel: E agora o Brasil também planeja se tornar uma potência produtora de petróleo?

    Lula: Nós descobrimos reservas imensas de petróleo a 273 quilômetros da costa, a uma profundidade de 2.140 metros e sob uma camada de 5 mil metros de sal e rocha. Nós temos o know-how para explorar estas reservas. Nós esperamos começar a exploração teste em março e começar a produzir petróleo em 2010. Então o Brasil se tornará um grande exportador de petróleo. Nós queremos entrar para a Opep e tentar deixar o petróleo mais barato.

    Spiegel: Até recentemente, o senhor estava elogiando os produtores de açúcar como os novos heróis nacionais. O Brasil depositou suas apostas no etanol, derivado de cana-de-açúcar, como o combustível do futuro. Mas, na Europa, o biocombustível agora é visto como ecologicamente suspeito.

    Lula: O Brasil tem 33 anos de experiência com biocombustíveis. Os carros que são fabricados no nosso país vêm com motores que rodam com misturas de gasolina e álcool. Eles reduzem consideravelmente as emissões de CO2. As plantações de cana-de-açúcar são cortadas por cinco anos consecutivos.

    Enquanto as plantas estão crescendo, elas capturam dióxido de carbono. A produção é tão barata que não tem concorrência.

    Spiegel: Recentemente houve tumultos, do Haiti à Índia, devido ao aumento dos preços dos alimentos básicos. A plantação de biomassa para combustível ameaça a produção de grãos?

    Lula: Eu posso entender que os europeus tenham essas dúvidas. Mas este argumento não se aplica à cana-de-açúcar brasileira ou ao nosso óleo de palma. A produção de combustível a partir de commodities alimentares básicos é, na verdade, injustificável. Mas são os Estados Unidos que usam milho como biocombustível, que então deixa de estar disponível como alimento, enquanto os europeus produzem energia a partir da beterraba, canola e trigo. Eu sempre disse aos meus amigos europeus que não vale a pena reestruturar seus sistemas agrícolas bem organizados para produção de biocombustível. Nós, e os africanos, podemos fazer um trabalho bem melhor nesse sentido. A União Européia deve dar ao Terceiro Mundo a chance de produzir biocombustível. Além disso, nós não devemos esquecer que o custo mais alto do petróleo e dos
    fertilizantes também contribui para o preço mais alto dos alimentos. Isso é encoberto.

    Spiegel: Mas a ampliação das terras agrícolas dedicadas à cana-de-açúcar tira espaço de plantações de milho e soja.

    Lula: Nós temos abundância de terra -280 milhões de hectares de terra arável-, assim como temos abundância de sol e água. A cana-de-açúcar é cultivada em apenas 3% desta área. O Primeiro Mundo deve parar de subsidiar sua própria agricultura e suspender as altas tarifas protecionistas sobre as importações.

    Spiegel: O governador do Estado do Mato Grosso, o maior produtor de soja do mundo, disse que mais floresta tropical precisa ser derrubada para atender à demanda por alimento, especialmente na China. O alto consumo de carne e soja nas economias emergentes leva à destruição do meio ambiente no Brasil?

    Lula: Isso não é verdade. A região Amazônica não é adequada para pasto de gado. E o solo não é bom nem para cana-de-açúcar e nem para soja.

    Spiegel: Mas o corte e queima ilegal continua.

    Lula: Nós reforçamos nossos controles. O desmatamento caiu quase 60% no Brasil. Só que mais de 22 milhões de pessoas vivem na região amazônica. Elas também querem comer, dirigir carros e usar refrigeradores.

    Spiegel: Governos de esquerda estão no poder em quase toda parte da América do Sul. Mas o continente está dividido em um movimento mais
    social-democrata, liderado por você, e um mais radical, moldado pelo
    presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Ainda restam alguns pontos em comum dentro da esquerda latino-americana?


    Lula: A esquerda na América do Sul ainda usa os mesmos slogans que a esquerda européia usava nos anos 20 e 30. Os políticos adotam uma posição mais radical nos lugares onde há fome e onde as pessoas não têm acesso ao ensino. Este continente foi agitado por golpes militares. Grupos guerrilheiros ainda estavam ativos em muitos países há apenas 20 anos. Hoje todos nós concordamos -com a exceção das Farc na Colômbia- que eleições são a única forma legítima de adquirir poder. As vitórias de Hugo Chávez, Evo Morales na Bolívia e outros, mais recentemente a de Fernando Lugo no Paraguai, significam progresso democrático. Já era hora dos presidentes eleitos serem realmente parte do povo.

    Spiegel: Mas é precisamente Chávez, com seu conceito de socialismo para o século 21, que está interferindo nos assuntos internos de outros países, especialmente na região andina. Ele não está desestabilizando toda a região?

    Lula: Ele talvez tenha problemas dentro de seu próprio país. Chávez é sem dúvida o melhor presidente da Venezuela nos últimos 100 anos. Todavia, ele tem bem menos influência do que as pessoas dizem. A Europa não tem necessidade de se preocupar com a esquerda na América Latina.

    Spiegel: Uma guerra quase estourou recentemente entre a Colômbia e o Equador.

    Lula: E foi onde Chávez provou ser um pacificador. Felizmente, a guerra na América Latina geralmente é travada apenas com palavras. A língua é nossa arma mais poderosa. Nós falamos demais!

    Spiegel: Mas os "hot spots" na América do Sul não podem ser negados. Há uma ameaça de escalada na violência na Bolívia porque as províncias ricas estão buscando declarar sua autonomia. O senhor não pode exercer sua influência para prevenir maior derramamento de sangue?

    Lula: O Brasil, juntamente com a Argentina e a Colômbia, formaram o Grupo de Amigos da Bolívia para ajudar o país. Quando o companheiro Evo estiver pronto para negociar, nós estaremos prontos para intermediar negociações.

    Spiegel: O senhor adora Fidel Castro e o visitou em janeiro. Agora o irmão dele, Raúl, anunciou reformas econômicas. O Brasil pode ajudar o país a democratizar seu sistema?

    Lula: Eu respeito o caminho que Cuba optou por seguir. Raúl está provando ser um sucessor capaz. Nós gostaríamos de ajudá-lo. Especialistas agrícolas brasileiros plantarão em Cuba 20 mil hectares de soja, que será a primeira plantação desse tipo na ilha. Nós também estamos construindo estradas e envolvidos na produção de produtos farmacêuticos. Os cubanos tem um alto nível de educação, e agora é hora deles criarem a base para promover o próximo grande passo de desenvolvimento.

    Spiegel: O senhor mantém uma amizade com os irmãos Castro e ainda assim tem um relacionamento excelente com o presidente americano George W. Bush. Como o senhor consegue este ato de equilibrismo?

    Lula: Agora eu sei me mover entre campos políticos. Quando todos no mundo odiavam (o líder líbio Muammar) Gaddafi, eu fiz uma visita oficial a ele. Aquilo causou alvoroço -Lula está visitando o diabo!

    Spiegel: É possível estar na esquerda latino-americana sem se rebelar contra os norte-americanos?

    Lula: Há sempre um certo preço associado a ser uma grande potência, e isso também se aplica a nós, como gigante econômico da América do Sul. Os Estados Unidos sempre tentaram dominar a América Latina. Na Bolívia, o embaixador americano mobilizou as organizações internacionais de ajuda para difamar Evo Morales. Aqueles que agem dessa forma fazem inimigos. Eu aconselhei Bush a apoiar, em particular, a América Central e o Caribe com ajuda de desenvolvimento.

    Spiegel: O Brasil e a China, duas potências econômicas em ascensão, entraram em uma aliança estratégica. Até o momento, isso levou os chineses a comprarem suas matérias-primas e inundarem o mercado com produtos baratos. O senhor não esperava mais deles?

    Lula: Todos os países têm problemas com o poder econômico da China. Nós reconhecemos a China como uma economia de mercado, para que pudesse participar das negociações na Organização Mundial do Comércio. Agora devemos assegurar que a China cumpra suas obrigações.

    Spiegel: A Alemanha perdeu influência política e econômica no Brasil nos últimos anos. A França, Espanha e até mesmo a Holanda estão investindo mais. Como o senhor explica isso?

    Lula: Eu entendo que os alemães se voltaram mais para o Leste após a queda do muro. Mas agora eles precisam voltar a prestar mais atenção ao Brasil e à América do Sul. Eles precisam pensar no potencial que esta região terá daqui 10 ou 15 anos. Nós planejamos construir três novas usinas hidrelétricas e duas usinas nucleares, assim como um trem de alta velocidade entre Rio e São Paulo. Os espanhóis já estão envolvidos. Eu gostaria de mostrar à chanceler alemã Angela Merkel mais do que apenas a capital durante sua próxima visita (de 13 a 15 de maio) ao Brasil. Eu gostaria de levá-la à região amazônica, até os brasileiros de ascendência alemã em Blumenau e a uma visita à Volkswagen.

    Spiegel: Após cinco anos no cargo, o senhor continua muito popular. O senhor planeja concorrer novamente?

    Lula: Dois mandatos bastam. Caso contrário a democracia se transforma em ditadura. A mudança faz bem para o país.

    Spiegel: Mas então o senhor não acompanhará a final entre Alemanha e Brasil, na Copa do Mundo de 2014, como o anfitrião no Estádio do Maracanã, no Rio!

    Lula: Certamente não como presidente, mas estarei lá como torcedor de futebol, o que eu prefiro.

    Spiegel: Sr. presidente, muito obrigado pela entrevista.

    Tradução: George El Khouri Andolfato


    Escrito por hsliberal às 00h10
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    UOL, Mídia Global, 24/05/2008
    Consumidores brasileiros vivem período de prosperidade
    Andrew Downie
    Em São Paulo


    Os consumidores nos Estados Unidos estão apertando o cinto; os brasileiros estão gastando como se não existisse palavra em português para recessão.

    Os americanos de classe média estão cercados por uma crescente onda de ansiedade; a classe média brasileira está crescendo.

    Até mesmo alguns americanos que dispõe de bom crédito não conseguem encontrar uma hipoteca; os brasileiros estão contraindo empréstimos como nunca antes.

    "No passado, quando os Estados Unidos espirravam, o Brasil pegava uma pneumonia, mas este não é mais o caso", disse Marcelo Carvalho, diretor executivo de pesquisa do Morgan Stanley no Brasil.

    Graças a uma recém-encontrada estabilidade econômica e vitalidade, aqui e em grande parte da região, a América Latina parece cada vez menos acorrentada à sorte dos Estados Unidos. "Há um grande descolamento ocorrendo", disse Carvalho. "A economia brasileira está crescendo rapidamente enquanto a americana já está, ao nosso ver, em recessão."

    O Brasil está se saindo bem graças a uma combinação de fatores. Os preços elevados das commodities, puxados pela demanda da China, provocaram a entrada de grande volume de dinheiro e criaram empregos.

    O investimento estrangeiro dobrou no ano passado, para US$ 34,6 bilhões, grande parte no mercado de ações, que é um dos que mais crescem no mundo. A moeda está forte, atingindo uma alta de nove anos frente ao dólar na semana passada, e provavelmente valorizará ainda mais dada a decisão no mês passado da Standard & Poor's de elevar o Brasil ao grau de investimento.

    A inflação, que encerrou 2007 a 4,5%, está sob controle e a economia está crescendo de forma consistente, apesar de não de forma espetacular, graças à administração competente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Seu abrangente programa assistencial distribui dinheiro para os pobres gastarem. Os salários estão subindo e o desemprego está caindo.

    Resumindo, mais brasileiros têm mais dinheiro.

    Lula chama isso de milagre. Mas na verdade, é algo que há muito era escasso na América Latina: confiança.

    Com tanto o governo quanto os analistas estrangeiros insistindo que a economia pode suportar os efeitos de uma desaceleração global, bancos e empresas estão confiantes o suficiente para emprestar aos consumidores a prazos mais longos do que antes. Ao mesmo tempo, uma classe média cada vez mais segura está confiante o suficiente para tomar empréstimos -a ponto, segundo os analistas, do consumo doméstico ter superado as exportações como principal motor econômico do Brasil, reduzindo o efeito do que acontece, digamos, nos Estados Unidos.

    Devido aos booms econômico e de crédito, bens caros como imóveis, carros e eletrodomésticos estão dentro do alcance de até 20 milhões de brasileiros a mais do que antes, estimou Érico Ferreira, o presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento.

    "Pessoas que não eram consumidoras agora são consumidoras", disse Ferreira. "Todos estão levando mais dinheiro para casa. Se você quiser crédito, você consegue."

    Uma visita a qualquer shopping center ou revendedora de carros sugere que é verdade. As lojas estão lotadas de compradores ávidos em gastar. As vendas de aparelhos domésticos aumentaram 17% do ano passado, a de celulares aumentou 21% e as vendas de computadores notebook e televisores de plasma e LCD quase triplicaram.

    Para itens como carros e imóveis, onde o pagamento em dinheiro raramente é viável, os números são ainda mais reveladores. O número de imóveis comprados com financiamento subiu 72% no ano passado, atingindo seu maior número já registrado, e a quantidade de dinheiro sendo emprestada para compra de veículos saltou 45%.

    A explosão de crédito é um fenômeno regional, segundo os economistas.

    Apesar dos países latino-americanos terem pouca tradição de crédito ao consumidor, a quantidade de dinheiro que está sendo emprestada está crescendo rapidamente, disse Gregorio Goity, um economista argentino e ex-chefe da Federação Ibero-Americana de Associações Financeiras.

    "Os totais gerais são baixos porque vêm de pontos de partida baixos", disse Goity.

    "Mas não consigo pensar em algum que não esteja crescendo", ele acrescentou, se referindo à América Latina. "Pessoas que não tinham uma geladeira, uma máquina de lavar, uma máquina de costura, um aquecedor para o inverno, um ar-condicionado para o verão, agora podem comprá-los e melhorar substancialmente sua qualidade de vida."

    A nova realidade é mais clara no Brasil -onde a quantidade de dinheiro lançada em cartões de crédito aumentou 20% no ano passado- e particularmente no mercado de automóveis. Um recorde de 2,46 milhões de veículos saíram dos pátios das fábricas no ano passado, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotivos. As vendas cresceram 31% até o momento neste ano.

    O motivo, concordam Lula e especialistas, é a mudança nos planos de pagamento. Até recentemente, as taxas de juros eram tão altas e a economia do Brasil tão imprevisível que os bancos não emprestavam por períodos prolongados.

    As taxas de juros estavam a 25% quando Lula assumiu o governo em 2003, mas caíram para 11,25% no ano passado, ainda entre as mais altas do mundo, mas baixa para os padrões brasileiros. E apesar do medo da inflação ter levado o Banco Central do Brasil a aumentar suas taxas em 0,5 ponto percentual no mês passado, o primeiro aumento em mais de dois anos, os pagamentos de juros da maioria dos consumidores permanece administrável.

    Uma taxa de financiamento de imóvel típica é de 12% ao ano, para automóvel é entre 14% e 15%, e para bens de consumo varia de 42% a 43%, disse Félix Cardamone, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Cartão de Crédito e Serviços.

    Os financiamentos de imóveis podem ser pagos em 30 anos, os financiamentos de carros podem ser pagos em sete e de aparelhos domésticos podem ser pagos em até dois anos.

    "Há dois milagres básicos: primeiro, o aumento da renda das pessoas, e o segundo, o aumento do número de prestações mensais que uma pessoa pode fazer para pagar o carro", disse Lula no mês passado.

    "E o que a indústria automotiva fez? Ela aumentou o número de prestações de 36 ou 24 para 72, para 82. E o que aconteceu? O que aconteceu é que a indústria automotiva corre o risco de atingir capacidade plena de produção no próximo ano. As pessoas estão esperando na fila para comprar um carro."

    Ainda assim, o número de brasileiros que dispõem de crédito permanece relativamente baixo. O volume de crédito no Brasil em fevereiro foi de 34,9% do produto interno bruto.

    O crédito doméstico nos países da zona do euro para o setor privado era de 116% do PIB, segundo números do Banco Mundial de 2006; nos Estados Unidos era de 201% e no Japão era de 419%.

    Ferreira previu que no Brasil a proporção de dívida pessoal em relação ao PIB pode passar para entre 38% e 40% neste ano e pode aumentar 3% adicionais a cada ano até 2013. Ela poderia subir mais caso as taxas de juros venham a cair para valores de um único dígito -um cenário improvável, ele acredita- porque milhões de brasileiros atualmente se recusam a pagar o que consideram taxas elevadas.

    Sérgio Troczynski era um deles. O consultor comercial de 24 anos finalmente comprou um Fiat Punto prateado em abril e realizou seu sonho de ser proprietário de um carro zero.

    Troczynski é típico do novo clã do crédito. Há poucos anos ele não podia arcar com as prestações exorbitantes. Hoje, entretanto, ele recebe o suficiente para dar uma entrada em seu veículo dos sonhos -e em um aparelho de televisão de 32 polegadas. Ele pagará o equivalente a US$ 455 por mês ao longo de 36 meses pelo carro e cerca de US$ 121 pelo televisor por 12 meses.

    "Eu só consegui fazer isso graças ao financiamento. Eu não teria outra forma de fazer isso", disse Troczynski. "Antes os bancos não tinham confiança e nem os vendedores. Está muito mais fácil obter crédito e isso facilita a compra de um carro, de uma casa, para pagar ao longo de anos."

    "O crédito está lá, disponível", disse Divanir Gattamorta, um professor de música que estava com sua esposa em um shopping center em um domingo recente. "Mas conseguimos economizar o suficiente e compramos um carro." Gattamorta disse que eles não queriam financiar porque as taxas de juros eram abusivas.

    Os especialistas reconhecem que as taxas atuais afugentam muitas pessoas e dizem que estas queixas simplesmente confirmam o potencial de crescimento futuro -se e quando as taxas de juros caírem ainda mais. "Se as taxas de juros caírem para um único dígito, o efeito seria astronômico", disse Cardamone. "Eu não duvido que quanto mais caírem as taxas de juros, mais as pessoas estarão predispostas a tomarem empréstimos."

    Tradução: George El Khouri Andolfato


    Escrito por hsliberal às 00h05
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    Brasil promove organismo comum de defesa sul-americano


    UOL, Mídia Global, 24/05/2008
    Brasil promove organismo comum de defesa sul-americano
    Doze países constituem o bloco regional do Unasul

    Jorge Marirrodriga
    Em Buenos Aires


    Com perseverança se alcança qualquer fim. Essa é pelo menos a intenção do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, principal promotor da União de Nações Sul-Americanas (Unasul, ou Unasur para os países de língua espanhola), que foi criada oficialmente na sexta-feira (23/05) em Brasília com a assinatura e a presença dos demais presidentes da região. Ninguém quis lembrar na sexta-feira a recém-nascida e imediatamente defunta União Sul-Americana, fundada em 2005 em Lima pelos mesmos países e que nestes dois anos e meio não deu resultados.

    A união lançada na sexta-feira contém duas diferenças importantes em relação ao projeto anterior: é o Brasil quem toma a iniciativa, e a ata de fundação já nasce com um projeto concreto, a criação de um Conselho Sul-Americano de Defesa. Os membros se comprometeram a assinar em seis meses um tratado de segurança.

    Lula definiu os objetivos: "A América do Sul tem capacidade para mover o tabuleiro político de todo o mundo em benefício de nossas nações". Quer dizer, que em um momento em que o Oriente Médio e a Ásia chamam a atenção mundial, a América do Sul quer ser o ator principal: "Mais de 300 milhões de pessoas que se beneficiam de uma excepcional fase de crescimento e de programas bem-sucedidos de inclusão social transformam a região em um grande mercado de consumo", afirmou Lula.

    Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves


    Escrito por hsliberal às 00h01
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    São Paulo, quinta-feira, 10 de abril de 2008

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    TENDÊNCIAS/DEBATES

    Brumas do Tibete

    ALDO PEREIRA

    Quem apóia a campanha do dalai-lama deveria, primeiro, perguntar se eventual restauração instituiria direitos humanos no Tibete

    O POVO tibetano acredita descender de um macaco criado por Avalokitesvara ("senhor que observa o mundo") e baixado a este plano inferior, onde gerou seis híbridos numa demônia que o seduziu. A nação tibetana reverencia Tenzin Gyatso, 72, como "emanação" (manifestação corpórea) desse macaco primordial. Tal linhagem legitima seu título de dalai-lama, sumo sacerdote e monarca do Tibete. (Dalai, "[profundo e grande como] oceano"; lama, "superior [de mosteiro]".)
    Tibetanos alegam razões de religião e identidade nacional como essas para pleitear o retorno do dalai-lama. Mas, tirante o clero, poucos pretendem ver restaurada a ordem social que ele regia.
    No século 8, o Tibete anexou ou avassalou várias nações da Ásia Central, inclusive a China, que teve a capital saqueada em 763. Na gangorra da história, o Império Mongol ascendeu e suplantou o tibetano. No século 13, foi a China que impôs ao Tibete e à Mongólia a vassalagem, que ela interpreta como anexação.
    Durante os sete séculos seguintes, a China negligenciaria colonizar o remoto Tibete. No século 19, o Império Chinês era baleia ferida e acossada por tubarões. Cedeu metade do território a potências européias, que ainda lhe extorquiram privilégios comerciais no resto do país, e puniram recalcitrâncias com invasão e mais extorsões. A conseqüente desmoralização da monarquia propiciou a revolução republicana de 1911-12.
    Pescando nessas águas agitadas, o Tibete declarou independência. A China não reagiu, afligida então, e nas décadas seguintes, por calamidades de fome e uma enxurrada de sangue: rebeliões e guerra civil entre comunistas e nacionalistas. Os dois blocos se aliaram em 1937-45 para repelir a invasão japonesa, mas depois voltaram a guerrear entre si até 1949, quando os comunistas assumiram o controle do território continental.
    Em 1951, o exército chinês ocupou o Tibete, e quadros comunistas assumiram a administração. Na teocracia deposta, sacerdotes e nobres possuíam todas as terras e demais meios de produção. Camponeses, nômades, pequenos comerciantes e mendigos formavam minoria relativamente livre da plebe. Desta, uns 90% eram servos; outros 5%, escravos.
    O amo sustentava o escravo, que prestava serviços domésticos e não produzia, mas não o servo. Ambos passavam sua condição aos filhos. A lei sancionava mutilações e outras torturas. Deficiências de higiene e nutrição matavam quase metade dos bebês no primeiro ano de vida. Não havia escola pública. A taxa de analfabetismo chegava a 90%.
    Em lugar de partidos, disputavam então o poder diferentes seitas budistas. Como o celibato o priva de herdeiro, a morte de um dalai-lama enseja processo sucessório que consiste em reconhecer "emanação" (reencarnação) do morto em algum menino tibetano. Lamas de alta hierarquia promovem a busca segundo oráculos, visões e pistas crípticas legadas pelo antecessor.
    Em troca de autonomia, o dalai-lama reconheceu a soberania chinesa em 1951. Mas, no contexto da Guerra Fria, a Agência Central de Inteligência do governo americano (CIA) passou a prover insurretos tibetanos de treinamento e armas.
    Em 1959, o Exército chinês reprimiu uma rebelião com brutal eficiência. O dalai-lama, que deixara a capital pouco antes, fugiu para a Índia. A organização dos tibetanos que o acompanharam admitiria depois que, na década de 1960, recebia da CIA estipêndio anual de 1,7 milhão de dólares ("New York Times", 2/10/1998).
    O dalai-lama não reivindica independência para o Tibete, apenas autonomia (leia: restauração dos privilégios). Enquanto isso, o governo central coloniza a região mediante imigração favorecida de chineses das etnias han (dominante na China) e hui (minoria muçulmana). Nos distúrbios de março, tibetanos hostis aos imigrantes incendiaram lojas e outras propriedades desses "estrangeiros".
    Quem apóia a campanha do dalai-lama deveria, primeiro, perguntar se eventual restauração instituiria direitos humanos no Tibete. Segundo, perceber que a estratégia de incitar tibetanos à revolta meramente agrava sua opressão, porque o governo chinês não cederá: é imune a sanções diplomáticas ou econômicas e sabe que o interesse comercial do mundo na China torna quixotesca a proposta de boicote da Olimpíada.
    Outras minorias étnicas da China, além da tibetana, concorrem à liberdade na arena política desta Olimpíada. Mas nenhuma delas será livre enquanto a própria China não for.


    ALDO PEREIRA , 75, é ex-editorialista e colaborador especial da Folha.
    aldopereira.argumento@uol.com.br

    Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br




    Escrito por hsliberal às 15h53
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    São Paulo, domingo, 06 de abril de 2008

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    ELIO GASPARI

    Um grande voto no julgamento do ProUni


    O ministro Carlos Ayres Britto defendeu o programa com uma exaltação da igualdade social

    BENDITA A HORA em que o DEM (ex-PFL) e a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino resolveram bater às portas do Supremo Tribunal Federal, sustentando a inconstitucionalidade dos atos que criaram o ProUni. Levaram para a Corte a discussão da legalidade de ações afirmativas baseadas em critérios de renda e de raça para o acesso ao ensino superior. Na semana passada, tomaram a primeira pancada, pelo voto do ministro-relator Carlos Ayres Britto.
    O ProUni troca por bolsas de estudo as imunidades tributárias dadas às universidades particulares. Coisa como 10% das vagas disponíveis. O programa já atendeu 310 mil jovens oriundos da rede pública e neste ano formará a sua primeira turma, com 60 mil bolsistas. Há 100 mil estudantes pré-selecionados para a próxima rodada de matrículas. Para receber uma bolsa integral, a renda per capita familiar do candidato não pode ser superior a 1,5 salário mínimo. Por exemplo, um casal com dois filhos não pode ganhar mais de R$ 1.648. As vagas do ProUni também devem ser preenchidas favorecendo o acesso de candidatos afro-descendentes (quem não gosta da expressão pode chamá-los de "descendentes de escravos"). A concessão de bolsas deve acompanhar os percentuais de diversidade de cada Estado, conforme o censo do IBGE. Há um regime de bolsas parciais, que segue critérios semelhantes.
    Segundo a Confenen e o DEM, esses critérios são inconstitucionais porque violam o princípio da igualdade entre os cidadãos. (Eles faziam outras restrições, também rejeitadas pelo relator.)
    Britto julgou improcedente o pedido, argumentando em cima do nervo da questão: o que é a igualdade numa situação de desigualdade? Nas suas palavras: "Não há outro modo de concretizar o valor constitucional da igualdade senão pelo decidido combate aos fatores reais de desigualdade. (...) É como dizer: a lei existe para, diante dessa ou daquela desigualação que se revele densamente perturbadora da harmonia ou do equilíbrio social, impor outra desigualação compensatória".
    Em vez de tentar derrubar quem está em cima, empurra-se quem está em baixo. Tome-se o caso de dois jovens reprovados nos rigorosos vestibulares das universidades públicas, gratuitas. Um, de família mais abonada, vai para uma faculdade particular, paga. O outro iria à lona, mas, com o ProUni, vai à aula.
    Britto buscou uma parte de sua argumentação na Oração aos Moços, de Rui Barbosa: "A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. (...) Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real".
    O voto de Britto trata só do Pro-Uni. Sua linha de raciocínio abre um guarda-chuva conceitual que antevê próximos julgamentos, quando o STF será chamado a decidir sobre a constitucionalidade do regime de cotas em inúmeras universidades públicas. Terminada a leitura, na quarta-feira, o processo do ProUni foi suspenso por um pedido de vista do ministro Joaquim Barbosa e recomeçará em poucas semanas. Se o DEM e a Confenen não tivessem cutucado as togas com vara curta, essa bonita discussão não teria sido aberta.



    Escrito por hsliberal às 15h41
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    João Gulherme Estrella

    Entrevista: João Guilherme Estrella
    O sobrevivente

    O protagonista do livro Meu Nome Não É Johnny, que
    virou filme, fala de vício, tráfico, prisão e de como renasceu


    Ronaldo Soares

    "Ficava três, quatro noites sem dormir, sem comer. Tomava ácido e cheirava cocaína ao mesmo tempo"

    O carioca João Guilherme Estrella tem uma história como poucas. Entre 1989 e 1995, chegou a ser o principal distribuidor de drogas para a elite do Rio de Janeiro, credencial que lhe franqueou acesso às melhores festas da cidade e a transações milionárias. No auge de sua carreira, recebeu 150 000 dólares em uma única partida de cocaína para a Europa. Em seguida, foi preso e condenado a dois anos de reclusão. Primeiro, na carceragem da Polícia Federal, espremido numa cela com integrantes da facção criminosa Comando Vermelho. Depois, num manicômio judiciário. Aos 46 anos, está casado com uma advogada, pretende ter um filho, trabalha como produtor musical, prepara-se para lançar um CD e é o protagonista do livro que virou filme de sucesso. Meu Nome Não É Johnny (Ed. Record), escrito pelo jornalista Guilherme Fiuza, vendeu 22 000 exemplares desde 2004. O filme homônimo, com Selton Mello no papel principal, estreou no início de janeiro e já foi visto por quase 1 milhão de pessoas. Na semana passada, Estrella recebeu VEJA em sua produtora, em Ipanema, para a seguinte entrevista.

    Veja – O que leva um jovem de família estruturada, situação financeira privilegiada e boa educação, como era o seu caso, a mergulhar nas drogas?
    Estrella – Geralmente as pessoas acham que isso está ligado a insatisfação, problemas familiares, perdas afetivas, episódios de violência doméstica. Para mim, não é bem isso. A partir da minha própria experiência, acredito que, na maioria dos casos, o uso de drogas é apenas uma fase, superada quando o jovem faz a transição para uma postura mais séria na vida. Quando comecei a fumar maconha, com 14 anos, era um consumo esporádico, recreativo. Minha família estava completamente estruturada, eu estudava em um colégio muito bom, tinha amor em casa, diálogo, liberdade com confiança... Isso permaneceu durante todo o meu período de experimentação de drogas, que foi até os 18, 19 anos. O filme retrata o momento em que meu pai adoece, ele e minha mãe se separam e a família começa a se desestruturar. Não foi isso que me fez virar traficante. Mas essas coisas aconteceram num momento em que talvez eu começasse a realizar aquela passagem para o mundo adulto. Essa transição foi completamente atropelada.

    Veja – Quando o senhor se deu conta de que era um viciado?
    Estrella – Em nenhum momento caiu a ficha. Eu simplesmente não parava para pensar nisso, estava num ritmo alucinante. Ficava três, quatro, cinco noites sem dormir, sem comer, só bebendo, fumando cigarro e cheirando. Tomava ácido e cheirava cocaína ao mesmo tempo, uma mistura bombástica. Só bateu uma certa preocupação depois dos 28 anos, quando comecei a negociar cocaína e ela passou a chegar a minhas mãos em quantidades realmente exageradas. No começo, 3, 4 quilos de cada vez, mas no auge cheguei a negociar 15 quilos.

    Veja – O que exatamente o atraía?
    Estrella – Vários fatores explicam o poder de sedução das drogas. O principal deles, pela minha experiência, é que elas representam a extensão da adolescência. Não deixá-las é uma forma de continuar levando aquela vida de diversão, ausência de patrão, não-cumprimento de ordens, liberdade, aventura. Quando você passa a revender, agrega a isso uma sensação de poder efêmera, ligada à quantidade de dinheiro que entra e também ao tamanho do assédio das pessoas. Você sente que realmente está movimentando a cidade, não é mais um mero espectador dos fatos.

    Veja – O senhor virou um "barão do pó" mesmo sem ter uma grande estrutura por trás de seus negócios. Como conseguiu isso?
    Estrella – Eu fazia tudo praticamente sozinho, não queria saber da estrutura que fazia a droga chegar até mim. Havia uma pessoa que trazia a cocaína de Rondonópolis (MT), e só. Esse cara até tentou me apresentar as pessoas acima dele, mas eu nunca quis saber dessa coisa de Colômbia, Bolívia, matutos, facções, morros etc. Me bastava esse contato. Quando chegava um caminhão com 200 quilos de cocaína, esse cara me ligava. Eu ficava com 10, 15 quilos de pó, antes de ele começar a distribuição. Era um privilégio. Eu recebia com exclusividade uma quantidade bem razoável de uma cocaína de qualidade. Mas não fazia nem contabilidade das minhas vendas, não tinha o menor controle. Quando as pessoas me pediam para comprar fiado, eu topava, mesmo sabendo que a maioria não iria pagar. Era uma forma de me livrar de clientes indesejáveis. Quando o cara vinha me pedir de novo, eu dizia: "Queridão, tchau". Vendia 1 grama de cocaína pura por 30 reais, enquanto na rua se comprava meio grama de cocaína misturada pelo mesmo preço. Então chegou um momento em que pouca gente vendia, só eu. Por isso a polícia passou a me considerar um dos principais traficantes do Rio de Janeiro.

    Veja – A idéia de que um dia a polícia o pegaria não vinha a sua mente?
    Estrella – Também nesse caso demorou a cair a ficha. Só me dei conta do perigo quando fui preso pela primeira vez. Eu estava num restaurante com amigos, uns policiais me pegaram no banheiro e me levaram para o carro. Fiz um acordo ali mesmo. Eles queriam 5 000 dólares, mas acabei pagando 3 500, que foi o que deu para arrumar. Minha sorte foi ter fechado o acordo logo no carro, evitando que eles entrassem na minha casa, onde havia meio quilo de cocaína. Se eles fossem lá, o acerto sairia bem mais caro, provavelmente uns 30.000 dólares.

    Veja – Se pediam alto assim, é de imaginar que os ganhos eram realmente exorbitantes.
    Estrella – Tinha amigo meu que ficava impressionado. Em uma hora e meia, na sexta-feira, eu ganhava mais do que o cara, que ralava para caramba o mês inteiro. Numa sexta à noite ganhava o salário daqueles brasileiros que estão no patamar mais alto da pirâmide, o equivalente hoje a 20 000 reais. Mas não estava naquilo por dinheiro. Existia até um certo desprezo por ele. Eu torrava tudo o que ganhava, não tinha nenhum apego. O dinheiro era mais um ingrediente para movimentar aquela aventura toda.

    Veja – Que acabou na prisão...
    Estrella – Foram duas situações distintas na cadeia. Na Polícia Federal, como não denunciei ninguém, meu castigo foi ficar na cela de uma facção criminosa, o Comando Vermelho. Na custódia da PF havia uns 150 presos, de integrantes de facções inimigas a cidadãos estrangeiros. É um ambiente pesadíssimo, você corre risco de vida 24 horas por dia. Aqui fora, a gente xinga o amigo e tudo bem. Na cadeia, se fizer isso, mesmo de brincadeira, você pode dormir e não acordar. No manicômio era outra situação. As pessoas costumam dizer que é mais fácil lá, mas não é bem assim. Você está dentro de uma cela que não tem problema de superlotação, mas vai dormir no mesmo lugar, trancado, com pessoas que sofrem de psicoses gravíssimas. Havia psicopatas que mataram pais, filhos. Eles tomam toneladas de remédios. Eu vigiava para ver se estavam tomando mesmo. E dava bronca quando não tomavam. Senão, era impossível dormir. Mesmo assim, tentaram me matar três vezes.

    Veja – É possível ressocializar um ser humano em um ambiente daqueles?
    Estrella – Não há nada que indique isso. Lembro até de um episódio que ajuda a explicar por quê. Pedi para minha família trazer o Banco Imobiliário para eu jogar com os caras na cela. Quando o jogo parava naquela casinha do "Vá ao banco e pegue 500 reais", nunca tinha dinheiro. Os caras roubavam o banco. De verdade. As cedulazinhas sumiam. Tinha gente que não devolvia nem depois do jogo. Chegava uma hora em que não havia mais dinheiro para jogar, uma coisa impressionante. É uma forma de falar brincando de uma coisa séria. Não há nada naquele ambiente que ajude alguém a se ressocializar. Outros problemas também são graves...

    Veja – Quais?
    Estrella – Tive provas cabais de que o sigilo previsto na delação premiada não existe. Recebi em minhas mãos o depoimento de um preso que aceitou me delatar. Isso me chegou por um advogado que não era o meu. Cada vírgula da delação que o cara havia feito estava ali, na minha frente. Pelo acordo, ninguém poderia saber daquilo. E eu, dentro de uma carceragem, recebi a informação integral. Os presos da minha cela queriam matar o cara, mas não deixei.

    Veja – Qual foi sua estratégia para sobreviver?
    Estrella – Tenho uma enorme capacidade de me adaptar às situações. Percebi rapidamente que, mais do que me manter vivo fisicamente, eu tinha de combater a minha própria mente, que se tornara um inimigo perigosíssimo. O fator psicológico era avassalador. Era nisso que eu tinha de focar para sobreviver. No manicômio, eu vi um cara sadio, normal, ficar maluco. Ele não agüentou a barra e começou a andar em círculos, lendo a Bíblia o tempo todo. O cara pirou.

    Veja – E o senhor, como fez para preservar sua sanidade mental?
    Estrella – No início, na carceragem da PF, foi muito difícil. Uma coisa que eu fazia para manter a cabeça em ordem era ficar horas embaixo d’água, meditando no chuveiro, que era um cano na parede. Eu ficava muito ali, até que os presos me avisaram que, como a gente não pegava muito sol, meu pulmão poderia ser afetado. A primeira semana foi horrível. Cheguei a chorar algumas vezes. Baixinho, claro, para ninguém perceber. Na cadeia não se chora. Vi um cara receber a notícia da morte do irmão, ficar arrasado, mas não deixar correr uma lágrima. Já no manicômio, se a juíza não tivesse me permitido o uso de um instrumento musical e se eu não tivesse trabalhado lá dentro, teria sido insuportável.

    Veja – Como é a passagem do tempo dentro de uma prisão?
    Estrella – O dia simplesmente não acaba. Ali dentro, dois anos são uma eternidade. Em um dia você pode ler um livro inteiro, fazer duas músicas, trabalhar seis horas num expediente qualquer da cadeia, assistir a um filme na televisão, à novela, ao jornal da TV, e quando vai ver ainda são 4 da tarde. O dia não termina, é uma coisa impressionante. Agora, reconheço também que foi na prisão que eu passei a me enxergar, a me observar. Quem vem da adolescência e emenda numa loucura daquelas não reflete sobre si mesmo. Descobri que eu não tinha me visto ainda por dentro. E esse é um momento muito importante, em que você passa a valorizar a família absurdamente e a perceber quanto tem de cultivar isso. Minha família, que tinha ficado à parte quando eu comecei a me envolver com drogas, me amparou no momento mais difícil. Ela não me abandonou.

    Veja – O senhor trata de forma bem-humorada fatos trágicos. Isso é uma fuga?
    Estrella – O bom humor sempre foi um grande companheiro. Parece incrível, mas eu até consegui me divertir em alguns momentos. Quando trabalhava na administração do manicômio, por exemplo, peguei um monte de caixas de clipes e elásticos para brincar de guerra com os presos. Eu distribuía para o pessoal da minha cela, e a gente invadia a cela dos outros dando "tiros" com aquilo. Os caras ficaram chateados porque só a gente tinha esse privilégio, e passei a fornecer elásticos e clipes a todo mundo. Mas tivemos de parar, porque as pessoas estavam se machucando.

    Veja – Se o senhor tivesse o condão de mudar algo em sua vida, que momento escolheria?
    Estrella – O que vou falar não deve ser interpretado como arrependimento, pois não é. Quando resolvi fazer a última viagem para vender cocaína na Europa, que foi o que me levou à prisão, tive a sensação de que era a hora de desistir. Eu ia começar a trabalhar, tinha acertado com um amigo de ser diretor artístico de uma casa de shows. Tive aquele sexto sentido, mas não segui meu instinto. Por outro lado, eu também precisava daquilo, precisava bater em algum muro. Em vez de ser preso, eu poderia ter morrido de overdose. Até hoje não sei como meu organismo suportou a quantidade gigantesca de cocaína que consumi. Também não sei como consegui largar o vício sem fazer tratamento para enfrentar as crises de abstinência na prisão, que eram muito violentas. O máximo que fiz foi tomar diazepam durante dois meses no manicômio, porque estava agitado demais, ansioso à espera da sentença, e precisava me acalmar. Desde que saí da prisão não uso drogas. Uma vez por mês tomo chope com uns amigos, e só. Me permito isso porque os psicanalistas não me consideraram um dependente químico. Consigo manter um consumo leve, espaçado. Não é algo que um dependente químico consiga fazer.

    Veja – A que o senhor atribui o envolvimento cada vez maior de jovens de classe média com drogas e com o tráfico?
    Estrella – Na grande maioria, são histórias parecidas com a minha, de rapazes que não têm a menor noção da conseqüência de seus atos. Se por três ou quatro dias eles passassem pelo que passei, talvez pensassem duas vezes. O que me preocupa é que, se eles forem presos, talvez sejam condenados a uma pena exagerada. Uma coisa que os juízes têm de observar, seja o réu pobre, seja rico, é a história dele. Sei que é difícil, porque há milhares de processos, não há tempo nem juízes em quantidade suficiente para julgar cada indivíduo de forma mais humana.

    Veja – Como se sente com essa exposição toda que o senhor ganhou em decorrência do filme e do livro?
    Estrella – Eu só recebo parabéns. Não contei a minha história para passar mensagens do tipo faça isso, não faça aquilo. Mas é muito bacana que as pessoas tenham entendido que isso é uma volta por cima. Eu me sinto como se estivesse encerrando um ciclo, com o disco que vou lançar agora. A principal coisa que o consumo de drogas fez comigo foi me dispersar, desviar-me dos objetivos principais da minha vida. A última lembrança que tenho de algo que eu queria muito na minha adolescência era ser músico. Por isso, esse disco é um ciclo que se fecha. Agora posso me considerar uma pessoa pronta para seguir adiante.

    http://veja.abril.com.br/230108/entrevista.shtml



    Escrito por Leila às 08h50
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    Grandez nomes do showbizz norte-americano condenam bloqueio a Cuba

    Havana, 20 dez (acn) Influentes líderes do showbizz norte-americano,
    manifestaram seu protesto contra a política profundamente hostil que
    segue a atual administração norte-americana ao respeito de Cuba,
    impedindo assim de fortalecer o natural intercâmbio cultural que
    poderia existir entre ambas as nações.

    Segundo informou a página cultural do jornal Granma, já são 1,500 os
    intelectuais que assinaram uma carta dirigida ao presidente Bush e que
    vem circulando desde a última semana de novembro, com a exigência de
    pôr fim do bloqueio a Cuba e estabelecer normais relações de
    cooperações entre os criadores dos dois países.

    Já era conhecida a adesão ao documento de personalidades tais como
    Danny Glover, Sean Penn, Santana e Bonnie Right - nomes expressivos da
    indústria cultural norte-americana. Mas agora a lista se enriquece, de
    maneira surpreendente, com o apóio de altos executivos do mundo da
    música e o cinema. Entre eles Robert Kraft, presidente da Fox Music e
    Andy Spahn, consultor da companhia Dream Work, liderada pelo cineasta
    Steven Spielberg.

    Robert Kraft, já manifestou sua oposição a todo tipo de manipulação
    tendenciosa que impeça o diálogo cultural entre as nações. Seu
    prestígio não só se assenta numa espetacular carreira na produção
    musical -- responsável em boa medida dos sucessos de Linda Ronstadt,
    Bette Midler, Ozzy Osbourne, George Benson e Johnny Mathis; sem contar
    que sua companhia tenha desde 1994 até o presente em seu acervo três
    Oscar, quatro Globos de Ouro, 11 Grammy e 17 Emmy -- mas por sua
    própria contribuição às trilhas sonoras dos filmes de Jim Henson
    (criador do "Show dos Muppets"), e de outros populares produtos como "A
    Pequena Sereia" e a sitcom "Ally McBeal".

    "O valor intrínseco de um diálogo artístico com os amigos cubanos
    --expressou Kraft aos promotores da iniciativa-- não pode ser
    desestimado. A influência intelectual, artística e musical que a
    cultura cubana exerceu na criatividade norte-americana é profunda e
    deve continuar e ser apoiada".

    Por sua vez, Andy Spahn - qualificado por Spielberg como "uma das
    mentes mais brilhantes e laboriosas com as que já trabalhei" - deu seu
    aval para exigir o desmantelamento de uma política que priva os
    próprios norte-americanos de um contacto enriquecedor com a cultura
    cubana.

    Organizadores de festivais, como Bruce Labadie, do estabelecido San
    José Jazz Festival, e notáveis promotores de circuitos de música
    latina, entre os que se contam Jacira Castro (Salsa Power), Chuy Varela
    e David Wasserman (Latin Cool Records) também se pronunciaram por
    normalizar as relações com Cuba.

    Este movimento no seio da comunidade artística e intelectual de Estados
    Unidos, cobrou renovada atualidade a partir da carta que a bailarina
    Alicia Alonso dirigiu a seus colegas norte-americanos em outubro
    passado, para solicitar ações que ajudem a levantar o bloqueio e
    propiciar uma fluída relação cultural entre ambos os povos.


    Escrito por hsliberal às 16h53
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    Jornal Extra é vetado na TV Globo

    Jornal Extra é vetado na TV Globo

    Marcelo Tavela

    Um ovo podre acertou em cheio as Organizações Globo. O diário Extra, editado pelo Infoglobo, trouxe na quinta-feira (02/08) reportagem de primeira página sobre um vídeo com grupo de personalidades cariocas que gostam de atirar ovos nos passantes. Entre os que dão depoimento está Boninho, diretor do Big Brother Brasil, reality show da TV Globo. Após a publicação, os profissionais do Extra foram vetados na Globo.

    Além de não ter mais acesso ao site de imprensa da TV, os repórteres não puderam entrar no Projac nem acompanhar gravações externas. Quem tentava falar com a assessoria só recebia negativas. A Central Globo de Comunicação (CGCom) já vetou outros veículos após reportagens, mas essa é possivelmente a primera vez que jornal das próprias Organizações Globo é censurado. “O que esperar de uma emissora formada nos tempos da ditadura?”, questionou um profissional.

    O que diz a Globo
    Segundo a CGCom, o Extra fez o pedido de entrevista com Boninho. O diretor falou, mas sua versão para a história “não foi acolhida”. “Sempre que acontece esse tipo de omissão, a gente suspende o envio de material para avaliar se está havendo algum problema no processo. O fluxo já foi restabelecido”, diz a nota da emissora.

    O diretor do Extra, Bruno Thys, informa que não chegou a existir um veto. "Temos uma ótima relação com a TV Globo", disse.

    O vídeo “Ovos 2”, encontrado no YouTube, mostra os socialites Narcisa Tamborindeguy e Bruno Chateaubriand, além de Boninho, falando de ovos atirados e dando receitas de como deixá-los podres. “Já acertei muita vagabunda em São Paulo”, diz o diretor. Todos sabiam que estavam sendo filmados. O filme – e o original, “Ovos”, que tem um neto de Leonel Brizola como protagonista – pode ser assistido no site do Extra.

    Leia no original, publicado no Comunique-se: http://www.comunique-se.com.br/conteudo/newsshow.asp?editoria=8&idnot=38238&ReQuery=S



    Escrito por hsliberal às 23h01
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    Colômbia sofre de "genocídio" sindicalista

    Colômbia sofre de "genocídio" sindicalista

    Anastásia Moloney

    Quando os atiradores chegaram para matar Rodolfo Vecino, ele não foi encontrado. Em vez disso, sua mulher, seu guarda-costas e amigo estavam no carro blindado que corria pela estrada no Norte da Colômbia no ano passado.

    Dois atiradores em motocicletas abriram fogo nove vezes contra as janelas negras do carro, mas os passageiros escaparam ilesos.

    Três dias depois, Vecino - membro da direção do USO, sindicato de trabalhadores de petróleo da Colômbia - recebeu uma ameaça de morte por mensagem eletrônica, dizendo que ele e outros sindicalistas tinham 20 dias para deixar suas casas e "evitar problemas".

    "Recebi muitas ameaças de morte por telefone, fax e e-mail de grupos paramilitares durante os anos", diz Vecino. "Certa vez, tentaram até seqüestrar meus filhos quando saíam da escola".
    As ameaças contra Vecino são uma história comum na Colômbia.

    A situação dos sindicalistas do país não passou despercebida entre democratas nos EUA, que dizem que o governo de Bogotá deve fazer mais para reprimir esses assassinatos. A questão tornou-se importante obstáculo ao fechamento de um acordo de comércio bilateral com Washington, descarrilado por escândalos internos e violações de direitos humanos.

    "A Colômbia ainda é o país com maior número de sindicalistas mortos no mundo, e isso é preocupante", diz Harry Reid, líder da maioria do Senado.

    Carlos Rodríguez, presidente da Federação de Sindicatos Central da Colômbia, maior confederação trabalhista do país, acredita que as preocupações democratas são bem fundadas.

    Membros do sindicato, diz ele, enfrentam perseguição diária pelo país e são impedidos de desempenhar atividades legais do sindicato, inclusive negociações coletivas.

    Susan Lee, diretora do programa das Américas da Anistia Internacional, concorda. "Os sindicalistas da Colômbia estão recebendo uma mensagem clara: não reclamem das condições de trabalho nem façam campanha para proteger seus direitos porque vocês serão silenciados, a qualquer custo".

    Desde 1987, mais de 2.500 sindicalistas foram assassinados na Colômbia -um "genocídio", segundo Rodríguez. Como medida de segurança, ele, como dezenas de outros líderes sindicalistas, anda em carro blindado com quatro guarda-costas.

    Um recente relatório da Anistia salienta que seis entre cada 10 sindicalistas assassinados no mundo são colombianos. Até agora neste ano, 20 membros de sindicatos foram mortos no país, na maioria professores e funcionários da saúde.

    Entretanto, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, alega que durante sua presidência o número de sindicalistas assassinados caiu em 74%.

    Os membros dos sindicatos tornaram-se presas do conflito armado interno da Colômbia, onde ser taxado de simpatizante ou colaborador da guerrilha coloca o civil em risco.

    "Os sindicalistas muitas vezes são considerados parte da oposição ou da insurgência, em outras palavras, contra o Estado, o que os torna alvos dos paramilitares", explica Rodríguez. "Um professor em uma comunidade rural que fala de democracia e de direitos humanos freqüentemente torna-se suspeito de ser simpatizante da esquerda e alvo de grupos paramilitares".

    A maioria dos assassinatos de sindicalistas na Colômbia foi atribuída a paramilitares de direita que operam listas negras e cerca de 5% por agentes de segurança do Estado, diz Rodríguez.

    Apesar da desmobilização de cerca de 31.000 combatentes paramilitares, como parte de um frágil acordo de paz com o governo de Uribe, os sindicalistas ainda são alvos de milícias.

    Críticos americanos também levantaram a questão de ampla impunidade na Colômbia. Poucos são processados por crimes contra sindicalistas. "Denunciei as ameaças de morte e fiz várias reclamações às autoridades, mas não fizeram nada", diz Vecino.

    Parcialmente em resposta às demandas democratas, o procurador-geral da Colômbia prometeu aumentar os recursos destinados à solução de milhares de casos não resolvidos de sindicalistas assassinados.

    Sindicalistas colombianos visitaram os EUA nos últimos meses para esclarecer sua situação precária.

    "Democratas, inclusive Al Gore (ex-vice-presidente americano) e sindicatos americanos vêm escutando cuidadosamente as nossas preocupações e sabem sobre os problemas que enfrentamos. Eles nos disseram que, enquanto essa situação crítica continuar e não for feito progresso de verdade, não aprovarão o acordo comercial", diz Rodríguez.

    Tradução: Deborah Weinberg

    Fonte: Comitê de Solidariedade ao Povo Colombiano



    Escrito por hsliberal às 18h15
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